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Tomando emprestado de Guattari e Deleuze
sua bela metáfora fitológica, podemos
dizer que este é um livro-rizoma e não
um livro-raiz. Nos livros-raiz, tão
valorizados pela utopia moderna da
unidade, todos os argumentos são
organizados em torno um eixo central e
têm como função sustentar uma idéia,
partindo de um ponto prefixado e usando
um método bem definido. O paradigma do
livro-raiz é a monografia acadêmica, em
que tudo precisa convergir para um único
ponto: sustentar a validade da hipótese
inventada pelo autor. Tudo o que
extrapola esse limite é sentido como
supérfluo, como um excedente a ser
cortado, tanto por fugir aos objetivos
específicos da obra quanto para evitar
os ataques de uma banca eventualmente
hostil.
O
livro-raiz não compreende a
multiplicidade porque ele precisa
reduzir o mundo todo ao seu sistema, o
sistema-raiz da lógica moderna que, não
pode pensar o mundo senão como uma
grande unidade oculta sob a aparente
diversidade das coisas.
O
livro-raiz é um livro de guerra, um
livro moldado com hierarquias de
pensamento, que reivindica para si a
verdade (ao menos alguma verdade) e é
destinado a travar batalhas heróicas
pelas bandeiras que sustenta. Um livro
que exclui a diferença porque
inadmissível e, a pretexto de
representar a natureza em um sistema,
termina por inventar um simulacro de
mundo, feito de abstrações coerentes que
excluem de si as tensões e o pulsar da
vida humana.
O
livro-raiz é o correspondente literário
da perspectiva linear no desenho, que
compra a ilusão da unidade plástica da
obra pagando o preço de reduzir o homem
a um cíclope de pedra, que vê o mundo a
partir de um olho único e parado.
Opondo-se a tal padrão radicular, esta
obra se organiza na forma de rizoma,
como os tubérculos e a grama, que se
desenvolve sem um centro fixo, em que
cada unidade afirma sua diferença e não
se submete à hierarquia das raízes. Os
dezesseis textos que compõem este livro
não tratam do mesmo tema, não concordam
em suas idéias nem se deixam reunir em
qualquer unidade monológica. Mas ocorre
de estarem eles juntos, como juntos
estamos nós no mundo: por acaso e não
por destino.
Se
alguma ligação eles têm, é a de uma
certa harmonia que talvez possamos
perceber entre suas dissonâncias e
convergências... mas essas harmonias são
construídas pelo leitor e não
pressupostas dentro de alicerces
conceituais predefinidos como os que
sustentam um sistema-raiz. Contra a
unidade plástica do cubo italiano e da
perspectiva linear, optamos pela
estética multifacetada do cubismo
analítico de Picasso e Braque, que fazem
coexistir na mesma obra as facetas mais
variadas de um mesmo objeto, numa opção
explícita pela multiplicidade real em
oposição à unidade fictícia da pintura
clássica.
O
livro, então, é um rizoma cubista, que
existe como uma sucessão de textos
organizada de uma maneira que
(esperamos) seja capaz de acentuar suas
aproximações e distâncias, suas
convergências dissonantes e suas
incompatibilidades insuperáveis por
qualquer tipo de síntese. Falamos em
sucessão de textos, mas isso é errado,
pois, em todo livro, os textos são
justapostos e não sucessivos: trata-se
apenas de uma questão de espaço, não de
tempo.
No
livro, os textos coexistem, parados fora
do tempo, esperando que o olhar do
leitor lhes confira alguma significação.
Quer dizer, os textos não esperam nada,
quem espera somos nós, que os escrevemos
e desejamos que sejam lidos... De toda
forma, a existência física do texto é
atemporal, muito embora sua existência
semântica seja construída na história (e
portanto no tempo) pelo esforço do
leitor.
E, se
o alguém ler, fará sua leitura na ordem
e no ritmo que preferir, saltando as
partes que quiser, inventando os
sentidos que bem entender. Apesar de
tudo isso, é preciso escolher uma certa
ordem, porque os riscos de tinta
precisam ser dispostos sobre o papel de
alguma forma. Uma das saídas mais justas
para um livro-rizoma é seguir o exemplo
de Barthes, que organizou os fragmentos
do discurso amoroso em ordem alfabética,
para evitar a idéia de que haveria entre
eles alguma hierarquia necessária.
Todos
os artigos se pressupõem, todos se
completam, todos se tensionam. E, como
justamente por isso eles poderiam ter
sido dispostos das maneiras mais
diversas, vale a pena explicar um pouco
os motivos que nos levaram a escolher,
para um livro rizoma, uma organização
musical.
Se
sinfonias são organizações de tempo
(sons e silêncios que se distendem no
tempo e só nele podem alcançar sua
existência) que podem ser representadas
no espaço, na forma de notações
musicais, também os textos somente no
tempo encontram sua plenitude, pois os
seus sentidos se constroem pela
atividade da leitura e reflexão, que
ocorre no tempo como a execução de uma
sinfonia. Em ambos os casos, a dimensão
espacial das linhas e pontos impressos
sobre o papel nunca ganha duas vezes o
mesmo significado, na medida em que cada
intérprete imprime à obra sentidos
diversos, pois o sentido é construído no
diálogo entre as singularidades
cambiantes dos intérpretes e as
potencialidades semânticas e estéticas
das composições.
Pensando esta obra como uma composição
verbal que admite múltiplas leituras e
que é construída polifonicamente,
optamos por uma aglutinação espacial em
cinco movimentos, construídos a
partir das convergências temáticas
encontradas nos textos e ordenados de
uma forma que quase vai do mais geral ao
mais particular, iniciando-se por
reflexões sobre o sentido e os limites
do projeto de modernidade que hoje se
encontra em crise (primeiro movimento),
sobre os reflexos dessa crise no sujeito
contemporâneo (segundo movimento),
nas percepções éticas (terceiro
movimento), nas concepções
político-jurídicas (quarto movimento),
bem como na construção de uma reflexão
sobre as potencialidades da pragmática
universal de Habermas, que é uma das
perspectivas teóricas mais em voga nos
dias atuais (quinto movimento).
Mas a
ilusão de sistematicidade que essa ordem
linear sugere não deve ser
demasiadamente considerada, pois cada um
dos movimentos é composto por
mapas diversos, alguns em escala maior
(analisando um conceito específico na
obra de determinado autor), outros em
escala menor (traçando grandes
panoramas, sem preocupação demasiada com
detalhes), e cada um deles numa
perspectiva diversa. Além disso, as
afinidades entre os textos reverberam
para fora do movimento em que foram
inseridos, gerando contrapontos que
ultrapassam a organização arbitrária que
escolhemos porque, no final das contas,
é sempre preciso escolher alguma.
O
primeiro movimento é composto por
três artigos, sendo os dois primeiros
visões panorâmicas sobre o projeto da
modernidade, suas origens e suas
limitações, especialmente as
dificuldades para pensar a diferença (e
o pensar a diferença é uma espécie de
leitmotif deste livro). Dessa forma,
tanto o texto de Alexandre Costa quanto
o de Miroslav Milovic podem servir, ao
lado do seu prefácio, como um pano de
fundo contra o qual se podem tornar
nítidas várias das discussões realizadas
nos demais artigos. E esse movimento se
completa com o texto de Cesare Giuseppe
Galvan, que problematiza a perspectiva
econômica dominante, que identifica nas
trocas monetárias o único elemento
relevante para a compreensão do
funcionamento das economias, deixando de
lado outras formas de relação humana que
ainda estão presentes na sociedade, por
mais que a visão econômica tradicional
normalmente não se interesse por elas.
Nessa medida, o texto representa uma
crítica à tendência moderna de reduzir
cada ramo do conhecimento a uma única
relação relevante, em um espécie de
monismo que deveria garantir precisão,
mas que pode levar a certas formas
perigosas de cegueira.
No
segundo movimento, afloram reflexões
sobre a constituição dos sujeitos
contemporâneos e suas distinções em
relação ao sujeito moderno, que sempre
foi pensado a partir do que nele seria
(ou deveria ser) universal e não a
partir das suas singularidades.
Reconhecer o modo como as diferenças
constituem a identidade das pessoas, em
vez de buscar os traços universais que
possibilitam um pensamento
generalizante, é um desafio ainda a ser
vencido. Nessa linha, ganham relevâncias
as inspirações foucaultianas presentes
nos dois primeiros textos, que exploram
questões relativas aos modos de
realização do poder nas sociedades
atuais. Mas seja a partir de uma
perspectiva mais filosófica (no texto de
Wanderson Flor do Nascimento) ou
sociológica (no texto de Monica Daniels),
as reflexões convergem para uma análise
da intolerância moderna com a diferença
e das perspectivas de construção de uma
sociedade aberta a uma pluralidade de
valores e modos de ser, que liga
fortemente ambos os textos com o
terceiro movimento, que discute as
possibilidades de construção de uma nova
ética.
Porém,
antes de passar ao terceiro movimento,
é preciso acentuar uma outra consonância
presente tanto em Foucault como nos
textos que compõem o segundo
movimento, que é uma concentração
nos problemas do corpo e da sexualidade,
que são tratados tanto no texto de
Monica Daniels como no artigo da Rosa
Pereira, que aborda especificamente a
construção de identidades sexuais que
ultrapassam os modelos oferecidos pela
tradição e pela modernidade, os quais
são incapazes de lidar com a pluralidade
e fluidez do desejo humano. Mais uma
vez, então, mostra-se presente a grande
preocupação com o pensamento sobre a
diferença, realizado em um movimento
plural que entrelaça discursos
filosóficos, sociológicos e psicológicos
no mesmo espaço.
Já o
terceiro movimento traz ao debate
um personagem que não teve espaço na
cena moderna, que é o Outro. O sujeito
moderno percebe nos outros sujeitos uma
repetição do Mesmo, das mesmas
características universais e abstratas,
que igualam o homem a partir da
desconsideração de suas diferenças. Como
o grande paladino da reintrodução do
Outro no discurso filosófico foi Lévinas,
não deve causar espanto o fato de dois
dos artigos tomarem seu pensamento como
base para a reflexão. Essa concepção
está na base no texto de Rodrigo Lobo
Canalli, que acentua a relação entre as
idéias de Heidegger e Lévinas e o modo
como o ser-para-o-outro pode servir para
a superação da aridez individualista da
subjetividade moderna. Ela também está
no centro das reflexões do artigo de
Gabriela Lafetá Borges, que se
harmonizam com o tema do quinto
movimento ao questionarem acerca do
papel da palavra e da racionalidade na
construção de uma ética no enlace a
pessoa ao Outro.
Essa
oposição entre o mesmo e o outro
perpassa também o texto de Augusto
Sérgio São Bernardo, que recoloca a
questão da diferença no plano cultural,
explorando a possibilidade de se pensar
um sujeito para além daquele que tem
lugar nas teorias de matriz européia,
que percebem o sujeito apenas no seu
interior, deixando de lado o outro
relativo a si mesmo. Que outro é esse
que deve ser inserido nas nossas
preocupações éticas? Inspirado nas
reflexões de pensadores africanos e
latino-americanos, o artigo avalia se é
possível ou desejável as teorias que
preconizam a “morte do sujeito” em
sociedades nas quais a emancipação
iluminista sequer ocorreu e que, nessa
medida, talvez não se tenha esgotado
como projeto possível. E o terceiro
movimento é encerrado com um texto
que realiza uma espécie de transição
para o quarto movimento,
na medida em que explora o sentido da
idéia de moralidade no pensamento de
Hannah Arendt, que é conhecida
especialmente por sua produção em
filosofia política. Traçando um mapa
minucioso, o artigo de Rogério Madeira
analisa as diferenças entre moral e
política no pensamento arendtiano.
No
quarto movimento, centrado nas
questões políticas e jurídicas, os dois
Henriques tematizam as limitações do
individualismo moderno, mas sugerem
posturas opostas de reação contra o
egoísmo materialista das sociedades
modernas. Por um lado, o artigo de
Henrique Smidt traça um mapa panorâmico
da evolução dos padrões de organização
estatal para, ao final, sugerir a
valorização da solidariedade como um
elemento que pode superar o atomismo
individualista, reverberando em uma
outra tonalidade o conceito de dádiva
que serviu como fio condutor do texto de
Galvan, que encerra o primeiro
movimento. Por outro, o texto de
Henrique Carvalho explora o pensamento
político de Nietzsche, que não se opõe à
faceta atomista, mas ao materialismo das
sociedades liberais, propondo a
valorização de uma idéia de cultura que
não afirma a solidariedade, mas a
realização estética como elemento
fundamental de superação.
Ao
lado deles, o artigo de Fábio Portela
Lopes de Almeida traça uma análise das
tentativas modernas de fundar a validade
do direito. Ressaltando que essas
perspectivas encaram o problema da
justiça como um problema de
conhecimento, o texto avalia as relações
entre as noções de verdade e de justiça,
explorando as similitudes e implicações
entre as teorias epistemológicas e as
teorias da justiça. E, ao trabalhar a
fundamentação do direito e da moral, o
texto simultaneamente ecoa as
preocupações éticas dos artigos do
terceiro movimento e liga-se a
debates do quinto e último
movimento, que trata especificamente das
potencialidades da teoria habermasiana
para a compreensão do mundo
contemporâneo.
A
perspectiva de Habermas liga-se com a
idéia de uma pragmática universal, que é
analiticamente explicada no texto de
Leonardo A. de Andrade Barbosa e
problematizada no texto de Wilson
Roberto Theodoro Filho, que lida com a
tensão existente entre a comunidade de
comunicação real e a ideal, a qual está
no centro das noções de legitimidade
presentes nesta teoria., que radica na
comunicação o elemento fundamental para
explicar e normatizar a convivência.
Lidando especificamente com a aplicação
da teoria do agir comunicativo ao
direito, que já é trabalhada no texto de
Leonardo, o artigo de Agostinho Netto
aprofunda a discussão sobre a
possibilidade de as concepções
habermasianas servirem como uma
orientação adequada ao pensamento
jurídico contemporâneo, oferecendo
saídas tanto às aporias do
jusnaturalismo quanto do positivismo
jurídico. E, ecoando uma das conclusões
do artigo, que indica na teoria de
Habermas algo de conformista, o artigo
do
Juliano Zaiden Benvindo
pergunta-se expressamente se a
comunicação é capaz de ter um caráter
emancipatório, para concluir em sentido
diverso do texto anterior, apontando
para as potencialidades da razão
comunicativa como elemento capaz de
pensar a diferença e lidar com a
alteridade.
Os
autores são todos pesquisadores do grupo
de pesquisa Pensamento Social, criado em
2004. A partir de Brasília, o grupo vem
incorporando pessoas de Recife, São
Paulo e Rio de Janeiro. O que nos une é
a teimosia em pensar o social. Mais do
que isso, observá-lo com as mais
diferentes lentes - somos filósofos,
cientistas políticos, advogados,
psicanalistas, sociólogos, antropólogos,
historiadores, físicos e economistas.
Essa multiplicidade de enfoques,
rizomáticos/cubistas/sinfônicos, em
busca da articulação entre a diferença e
o novo, é nosso maior desafio e uma
grande sedução. Ao traduzir isso num
primeiro livro, praticamos a noção de
diferença e tratamos de aceitar o
desafio miroslaviano de
inventar de reinventar o mundo.
Prefácio>>> |