sociedade e diferença
g r u p o d e p
e s q u i s a
p e n s a m e n t o s o c i a l
alexandre
araújo costa
Teorias são metáforas sobre o mundo, mesmo
quando pretendem ser paráfrases. Isso
acontece porque, apesar de os teóricos
normalmente utilizarem uma linguagem
denotativa (essa linguagem que privilegia o
rigor ao estilo e que comumente chamamos de
científica), por trás dos sentidos literais
pulsam valores e símbolos, crenças
ancestrais e modernas que integram os nossos
modos de organizar experiências e constituir
a realidade. E esses elementos que subjazem
à teoria são justamente o ponto cego das
concepções tradicionais e modernas.
As perspectivas tradicionais[1]
não tematizam seus próprios pressupostos
porque eles são tidos como verdades óbvias.
Um grego não precisava justificar perante o
cidadão a predominância da pólis e da
tradição; um cristão não precisa justificar
para outro porque os mandamentos do seu deus
são obrigatórios; um pai não justifica
perante o filho o seu poder. Tudo isso é
sentido como parte da ordem objetiva do
mundo, fatos tão evidentes e naturais que
não faz sentido algum colocá-los em dúvida.
Nesse contexto, a função das teorias é a
mesma que a função das artes: representar
o mundo, um mundo que é percebido como
um fato objetivo, que existe
independentemente do homem e que se desvela
perante um olhar cuidadoso, de tal modo que
a atividade cognitiva é percebida como
contemplativa e não como criadora[2].
O teórico, tal como o artista de então, não
tinha como objetivo criar novos conceitos e
símbolos, mas simplesmente representar o
mundo em palavras e imagens, o que faz com
que a qualidade tanto da arte como da teoria
seja medida em razão de sua fidelidade ao
modelo original. E a fidelidade é o critério
de avaliação da paráfrase, e não da
metáfora.
É certo que o mundo, então, era outro, pois
não havia uma redução do real ao empírico,
redução esta que somente foi operada pela
modernidade por volta de 1600, quando as
explicações mecânico-causais tornaram-se as
únicas explicações aceitáveis. As alegorias
de Platão, que explicava o mundo por
analogias, eram possivelmente sentidas mais
como poesia do que como ciência, pois o
objetivo do conhecimento moderno era
mais próximo da paráfrase aristotélica, que
explicava os fenômenos a partir de suas
causas. Porém, enquanto a metafísica
aristotélica implicava a aceitação de uma
finalidade para as coisas[3],
colocando lado a lado causa final, a
eficiente, a material e a
formal, a metafísica moderna somente
admite a explicação pela causa eficiente,
recusando as outras categorias causais
aristotélicas.
Com a modernidade, muita coisa foi alterada,
mas restou inalterada a identificação da
verdade com uma descrição fiel da realidade,
de forma que as concepções modernas
continuaram tratando as artes e as ciências
como formas de representar do mundo. Se as
representações medievais foram sendo
consideradas cada vez mais toscas, pueris
até, em seu “irrealismo”, as representações
antigas foram julgadas merecedoras da maior
deferência, pois antiguidade greco-romana
fornecia muitos modelos que o renascimento
fixou como modelos a serem seguidos.
Como não se supunha ainda que talvez o mundo
fosse uma invenção nossa, o desafio do homem
era compreender o mundo, desvendar suas
leis, descobrir o modo do seu funcionamento.
Quem enfrentou este desafio talvez
acreditasse estar criando uma nova arte, uma
nova filosofia ou um novo homem, mas não
acreditava estar moldando um mundo novo, e
sim desvelando uma realidade que, embora
sempre tenha existido, não era devidamente
conhecida. Para eles, não se tratava de uma
revolução (ligada à criação de uma
nova ordem), mas de um renascimento
(ligada ao retorno à verdade e aos valores
esquecidos).
Embora esta valorização da paráfrase[4]
implique um culto da representação, isso de
modo algum significa uma necessária
desvalorização da capacidade criativa. O
gênio parafraseador não é quem inventa o
mundo, mas quem inventa formas novas de
representá-lo, desvelando e esclarecendo o
que outros não viam. Imenso é o desafio
desses artistas que se esforçaram para
conquistar a capacidade de traduzir em
imagens ou em palavras a vida, a tensão, a
luz, a dor, o medo. Quando Leonardo inventou
o sfumato, ele se tornou capaz
infundir uma nova vida às imagens. Compare
com os dele os quadros de Mantegna ou de
Uccello, e estes parecerão retratos de
estátuas! Mas Leonardo não pretendia ter
inventado os seres humanos, assim como
Michelangelo não inventou a confiante
energia do David a espera de Golias.
O mundo é o modelo criado pelos deuses e não
pelos homens, de forma que as teorias
filosóficas e científicas, tal como as obras
de arte, devem apenas refleti-lo. O reflexo,
a tradução, a representação, a mimeis, todas
essas palavras expressam a idéia de uma
fidelidade ao modelo, o que somente pode ser
conquistado a partir de um olhar objetivo.
Frente a esse novo olhar sobre o mundo, a
arte e os conhecimentos anteriores pareceram
ultrapassados. Essa nova
objetividade, manifestada em padrões de
pensamento que vieram a ser chamados de
racionais, consolidou-se gradualmente
como o padrão correto de descrição do mundo.
Mas o humanismo do renascimento ainda não
era o racionalismo moderno, pois a
valorização do homem não implicava a negação
da transcendência, havendo ainda espaço para
a metafísica tradicional, o misticismo e a
teologia. Embora o papel do filósofo fosse
refletir o mundo, este ainda não havia sido
reduzido ao mundo finito dos fenômenos
empíricos. Além disso, apesar de a razão ser
um instrumento com força crescente, ainda
vigia a crença tradicional de que boa parte
do mundo era oculta à investigação racional,
Assim, antes do século XVII, a racionalidade
dedutiva e matemática era um instrumento
importante, mas não era a única forma
reconhecida como correta.
No quattrocento italiano, Nicolau de
Cusa utilizava metáforas matemáticas, mas
ainda supunha a existência de um intelecto
acima da razão, à qual seria impossível
compreender o infinito[5].
Durante o mesmo quattrocento, seu
contemporâneo Alberti desenvolveu a
perspectiva linear e matematizada como um
dos sistemas de representação do mundo[6],
porém este era apenas um dos instrumentos à
disposição dos artistas para efetuar seu
trabalho. Com o tempo, a razão passou
a ser entendida como a única forma de
compreender o mundo, recusando as outras
formas de acesso pelo fato de elas não serem
capazes de conduzir à certeza — e busca da
certeza é o desafio da modernidade.
Não é à toa que Descartes afirmou que se
comprazia “sobretudo com as matemáticas, por
causa da certeza e da evidência de suas
razões”, e convém lembrar que a certeza não
pode ser identificada simplesmente com a
verdade. A verdade tem caráter
objetivo, pois somente poder haver uma
descrição correta do mundo, mesmo que o
conhecimento dessa verdade caiba apenas a
alguns poucos iluminados. Já a certeza
é um estado subjetivo, pois, enquanto as
verdades comumente aceitas são frutos da
tradição, a certeza é fruto de uma
apreciação pessoal. A certeza é uma
experiência pessoal, assim como a fé. Mas,
se ter fé é ter certeza sem ter motivos, a
certeza que buscam os homens modernos é uma
certeza objetiva, motivada, justificada por
argumentos racionais. Ao perceberem que a
certeza antiga era fundada na crença acerca
da tradição e da autoridade, os modernos
buscaram um novo fundamento para a certeza.
Mas onde encontrar a base dessa certeza
objetiva, se a certeza é uma
experiência subjetiva? Como converter a
certeza em verdade? Os gregos não precisam
responder a essa pergunta justamente porque
eles não identificam certeza e verdade. A
certeza, fruto da dialética, tinha a ver com
a verossimilhança e não com a verdade, que
se mostra ao logos a partir da
contemplação. Os cristãos medievais e
modernos buscaram uma certeza que não podia
ser alcançada pela razão, valorizando mais a
fé que a demonstração.
Já a postura cartesiana implicou uma nova
estratégia de resposta a essa pergunta. Em
um primeiro momento, a pergunta parece
insolúvel, pois a admissão de que somente há
certeza subjetiva conduz à idéia de que não
há critério objetivo de verdade fora do
próprio sujeito. Esse é o ponto central da
recusa da tradição como fonte de verdade e
de obrigatoriedade. Já que eu posso duvidar
de tudo o que está fora de mim,
somente o que está dentro de mim pode
servir como base para uma certeza objetiva.
Cogito ergo sum, ou seja, posso
duvidar de tudo, menos de meu próprio
pensamento e de minha própria subjetividade:
essa é a certeza que pode me reconduzir à
verdade.
Se Descartes e os modernos houvessem
insistido nesse ponto com mais vigor, talvez
tivessem chegados a formulações muito
próximas das elaboradas no século XX.
Entretanto, era impensável cogitar que a
realidade fosse um fruto de nossa
subjetividade. O desafio era reconstruir uma
objetividade sobre a subjetividade, e logo
tornou-se claro que a mentalidade moderna
somente seria capaz de admitir um critério
de verdade objetiva: a subjetividade
universal. Provar que há certos fatos
cuja verdade precisa ser admitida por todas
as subjetividades, provar que há certas
normas cuja validade precisa ser aceita por
todos os sujeitos, isso significa
fundamentar (ou seja, demonstrar de maneira
objetiva) a verdade dessas afirmações e a
validade dessas normas. Assim, a busca de
critérios objetivos já não era mais a
procura de um ponto de partida fixo no
próprio mundo, mas de um ponto de contato
entre todas as subjetividades.
A universalização da subjetividade é via
moderna para garantir a objetividade do
mundo, estando ela na base das principais
concepções da modernidade. Essa é a base da
estratégia contratualista que, formulada
inicialmente por Hobbes, domina as teorias
de legitimidade política moderna até os dias
de hoje[7].
E também é essa a base da estratégia
dedutiva que orienta o pensamento lógico e
matemático[8]
e também da estratégia empirista que, apesar
de todas as críticas dos epistemólogos dos
séculos XIX e XX, ainda domina o pensamento
científico[9].
Todos esses elementos se vinculam à busca de
uma verdade objetiva, fundada na
evidência racional de certos fatos e
argumentos. Esse é justamente o é o primeiro
princípio cartesiano: “jamais aceitar alguma
coisa como verdadeira que não soubesse ser
evidentemente como tal”. As identificações
da verdade com a razão, da razão com a
certeza pessoal e da certeza com a
evidência, elas podem ser tudo, menos
evidentes e certas. Para os medievais, a
verdade última estava na metanóia (uma
compreensão da verdade para além da razão),
que era talvez certa, mas não poderia ser
evidente, já que essa era uma via aberta
para poucos. Com a valorização moderna da
evidência empírica, foi criada uma nova
racionalidade, fundada em uma nova
metafísica. Desde este momento até a
desconstrução do conceito de evidência,
feita por Hume e Kant no século XVIII, a
história do pensamento moderno pode ser lida
como a história do conhecimento que se
considerava evidente.
O olho que não se vê
Mas qual era o fundamento dessa evidência?
Evidentemente, era a própria razão, pois
tratava-se de uma evidência racional tudo
aquilo que a razão não poderia pôr em dúvida
sem recair em absurdo. A modernidade buscou
a transcendência, o dever, a salvação, a
felicidade e a virtude, mas sempre por meio
da certeza racional. Ela efetuou a separação
entre a certeza imotivada da fé (que não foi
abandonada, mas passou a ser uma virtude
ligada apenas aos aspectos da religião) e
certeza motivada da filosofia e das ciências
(ligadas ao pensamento fundado em evidências
racionais), de tal forma que se pode falar
de uma secularização do pensamento
filosófico e científico.
Mas que razão era esta? Essa pergunta não
foi respondida, pois a razão era o
instrumento com o qual se olhava o mundo e,
portanto, ela própria não podia ser
tematizada. Os pensamentos podiam ser
racionais, mas o próprio pensar era uma
realidade objetiva que se impunha ao
cogito cartesiano. Penso, logo existo.
Embora a modernidade não tenha respondido a
esta questão, ela estabeleceu o critério
básico de racionalidade (a evidência) e
criou uma nova mitologia, fundada em um novo
conceito de homem, em um novo ideal de
verdade, uma verdade secularizada e voltada
para a análise racional das coisas finitas
(que são aquelas que cabem na razão),
especialmente do próprio homem.
Essa redução da verdade à certeza
pode soar hoje como uma infinita
pretensão: a negação dos tradicionais
limites reconhecidos à razão, que passou a
ser utilizada como critério único para todo
o pensamento humano, fosse ele vinculado
física, à ética ou à lógica. Esse processo
de criação de um novo homem, de uma nova
razão, de uma nova objetividade, foi gestado
ao longo de séculos e alcançou sua
maturidade no início do século XVII, época
que marca o início da modernidade
filosófica.
Mas a modernidade é caracterizada justamente
por essa pretensão de fazer o pensamento
humano abarcar a totalidade do mundo e,
simultaneamente, submeter todo o pensamento
humano a uma só matriz, afirmando como único
critério de verdade evidência perante o
sujeito. Nesse processo, o mundo
greco-romano reinterpretado pela cultura
tardo-medieval, elegido como parâmetro de
correção pelos os renascentistas, passou
definitivamente ao passado, transformando-se
na Antigüidade que é história e não modelo.
Trata-se da época em que Descartes colocou o
sujeito como o fundamento da certeza
filosófica, em que Hobbes tentava substituir
uma fundamentação teológica do poder por uma
fundamentação racional, universalizando a
aceitação subjetiva da autoridade.
Esses pensadores inventaram um novo modo de
perceber a história, em que o presente
ultrapassa e suplanta o passado e o novo é
sinônimo de bom. Eles julgaram ter
encontrado a luz que os levaria para
fora da caverna (não percebendo que eles
haviam simplesmente inventado uma nova
lanterna), e nós ainda vivemos no mundo que
eles compuseram com seus novos instrumentos.
A partir desse momento, a redescrição
unitária e matematizada do mundo ganhou os
contornos de única descrição correta da
realidade. Foi o tempo em que a perspectiva
linear passou a passou a ser entendida por
muitos como o sistema correto de
representação do mundo, e quando Galileu deu
o último passo na matematização do
conhecimento físico, traduzindo as
constantes do mundo em equações matemáticas.
Esse momento foi tão vital para as ciências
que hoje é tipicamente conhecido como
Revolução Científica.
Foi também esse o tempo que Cervantes
inventou o romance moderno, voltando sua
ironia demolidora contra as idéias medievais
refletidas na loucura de Dom Quixote.
Nessa mesma época, Shakespeare criava um
novo sujeito no teatro, analisando
desnudando a personalidade desse novo homem
que surgia e Rembrandt pintava sua lição de
anatomia, mostrando o orgulho das novas
academias de ciências.
Olhando com os olhos contemporâneos, creio
ser correto afirmar que a modernidade
inaugurou um novo modo de pensar o mundo,
mas não inaugurou um novo modo de pensar o
próprio pensamento. Nesse campo, longe de
promover uma ruptura com o modo tradicional
de pensar, a modernidade simplesmente
inaugurou uma nova tradição, com ídolos e
crenças novos, porém fundados nas velhas
idéias de naturalidade e evidência.
Então, o que mudou frente às concepções
tradicionais não foi propriamente o objetivo
reconhecido às ciências e às artes, mas a
fixação da utopia de que era possível
observar o mundo a partir de uma perspectiva
objetiva. Mas a arte e a ciência ainda eram
entendidas como a representação de um mundo
objetivo, de um ponto de vista pretensamente
objetivo e único, que pudesse organizar a
experiência humana e construir uma
representação perfeita do real. Esse novo
critério de objetividade foi chamado de
racionalidade.
Contra o pluralismo medieval, com suas
crenças “ingênuas” e suas supertições
“ridículas”, era preciso erguer o edifício
da Verdade. E a Verdade, por ser a
representação de um mundo objetivo, era
única. Como há apenas uma verdade, o
conhecimento verdadeiro não pode ser
validamente contestado e duas verdades nunca
podem estar em contradição. Nasce, então, a
Ciência. Contra o pluralismo contraditório e
multiforme do senso comum, uma só
Racionalidade, um só Mundo, uma só Verdade.
E a Ciência, no fundo, é uma só, pois, sendo
o conhecimento do mundo, todas as ciências
particulares precisam dizer coisas
compatíveis entre si. Portanto, há apenas um
método científico, que deve conduzir à
verdade, que é objetiva e acessível ao
homem. Nesse ponto, empiristas e
racionalistas só divergem no detalhe, pois
se ambos discordam do valor a ser dado para
fatos empíricos, ambos concordam que a
racionalidade é a base da ciência.
Na arte, Arnold Hauser aponta que o espaço
da arte gótica é dominado pela justaposição
de detalhes, de modo que a obra individual é
composta por numerosas partes relativamente
independentes, dominadas por um senso de
coordenação e não de subordinação. A
sobreposição de tempos e espaços diferentes
dentro de uma mesma obra é recusada pela
Renascença, que construiu um espaço plástico
homogêneo, em que tudo o que pode ser
apreendido é visto a partir de um mesmo
ponto no espaço e no tempo.
Essa concepção simultânea somente é
possibilitada pela homogeneidade propiciada
pela perspectiva central, que organiza toda
a cena em torno de um único ponto.[10]
Esse tipo de objetividade, porém, não
resistiu às críticas da modernidade madura,
especialmente às críticas demolidoras de
Hume e às quase-desesperadas tentativas
kantianas de remendar o projeto da
modernidade. Esses pensadores colocaram em
xeque a objetividade das nossas
representações do mundo. Questionando a
idéia de causalidade, o Hume demonstrou que
a certeza científica sobre fatos empíricos
estava assentada sobre uma crença. Tentando
salvar a verdade absoluta da matemática e da
física frente as dúvidas levantadas pelo
jovem Hume, o velho Kant teve que construir
a revolucionária idéia de que o nosso
conhecimento não é uma representação
objetiva e direta do mundo, mas um fruto do
modo humano de olhar o mundo. Depois desses
pensadores, a triunfante modernidade
A objetividade mudou o foco: da objetividade
frente às coisas, chegamos à objetividade
frente aos homens. De uma racionalidade
vista como o modo correto de perceber as
coisas objetivas, partimos para uma
racionalidade que é o modo objetivo
como os homens percebem as coisas. Apesar da
grande mudança no sentido, a palavra
permaneceu a mesma: a Racionalidade.
Voltando ao paralelo com as artes, é
possível identificar essa radicalização
kantiana no impressionismo do final do
século XIX. Monet, Renoir, Pissarro, todos
eles perceberam que a pintura acadêmica de
Ingres, inspirada ainda pelos princípios do
Renascimento, não mostravam o mundo como ele
é. A perspectiva renascentista e os modos
tradicionais de pintar foram percebidos como
uma série de convenções que tentavam
conquistar a ilusão de tridimensionalidade a
partir de jogos de claro e escuro, jogos nos
quais a verdadeira luz se perdia, pois sem a
gradação do claro e do escuro era impossível
construir a perspectiva. Com esse tipo de
técnica é impossível, por exemplo, pintar
uma paisagem ao ar livre, e isso é algo que
nós vemos.
Para os impressionistas, era preciso pintar
exatamente o que o olho enxerga, e eles se
esforçaram para pintar a luz exatamente como
o olho humano a vê. Para quem acredita na
objetividade do mundo, as várias pinturas de
Monet da Catedral de Rouen são uma repetição
talvez entediante, de visões sobre um mesmo
objeto. Mas Monet pinta a luz, e a luz é
diferente em cada uma das situações... a
catedral já não é o objeto da pintura., mas
o modo como o próprio Monet enxerga a luz em
determinadas condições atmosféricas. E aí
está a revolução: não se tratava de pintar o
mundo, mas de pintar o modo como o homem via
o mundo, de pintar a luz (que é o que vemos)
e deixar que o olhar do observador
construísse a imagem. Uma pintura de Seurat
ou de Signac, que levaram ao extremo esse
objetivo, não passa de uma série de pontos
de cores básicas, que nossos olhos percebem
como gradações de cor, desde que elas sejam
olhadas suficientemente de longe.
Assim, a modernidade madura dos século XVIII
e XIX mudou completamente o objeto de
representação, mas, tal como Kant,
manteve intangível o ideal de objetividade:
objetivo não é o mundo, mas o modo de olhar.
Porém, a objetividade do modo de olhar
garante a objetividade das imagens. De toda
forma, os impressionistas ainda supõem
pintar o modo como vemos a luz e, sendo a
luz externa a nós, a dualidade sujeito
objeto ainda permanece no centro de sua
concepção, pois a obra de arte ainda tem uma
referência externa a ela mesma. A arte
impressionista ainda não é a constituição de
objetos, mas a representação de objetos,
motivo pelo qual o impressionismo representa
a modernidade madura e não a sua superação.
Mas, o chegar nesse ponto, foi praticamente
impossível evitar que os revolucionários
pensadores e artistas do início do século
XX, seguindo as intuições de alguns gênios
extemporâneos do século XIX, especialmente
de Nietzsche, Cézanne, Gauguin e Van Gogh,
olhassem para o espelho. Qual não deve ter
sido o susto quando perceberam que a
Racionalidade não era racional. Que a
pretensa objetividade racional não era
uma forma objetiva de ver o mundo, mas
uma certa forma de construir um mundo.
Daí para a percepção de que o artista não
refletia o mundo, mas criava obras que
constituíam um objeto independente no
mundo, não faltava muito. E foi esse
passo que abriu caminho para a arte abstrata
e conceitual do século XX.
Curiosamente, a racionalidade moderna é um
conhecimento pelas causas eficientes (para o
mundo) e formais (para a lógica) e, feita
uma análise crítica da própria
racionalidade, ela precisa admitir que parte
de algumas idéias que não podem ser
comprovadas. Se a base da evidência indutiva
é a crença (crítica essa que representa uma
radicalização das idéias de Hume), então não
existe uma Racionalidade racionalmente
demonstrável. Talvez o golpe mais duro nessa
visão unificada, embora o menos evidente
para as pessoas em geral, foi a elaboração
das matemáticas não-euclidianas no século
XIX, que sepultando a idéia da matemática
única, demoliu as bases da unificação do
pensamento moderno[11].
A utopia da verdade única, do espaço
homogêneo do renascimento, passou a ser
vista como uma concepção ingênua e
ultrapassada. Se a modernidade era
ultrapassada, então era preciso criar um
novo nome, pois o moderno é aquilo que
ultrapassa e não o que fica para trás. Por
isso, no campo das artes, o que atualmente
chamamos de arte moderna foi a arte que
surgiu, no início do século XX, como uma
ruptura radical do espaço plástico
renascentista. Mas, na filosofia, ainda
permanece a convenção de chamar de moderna a
ruptura com o medieval, o que nos fez
designar as reflexões contemporâneas pela
expressão pós-modernidade, esse termo
ambíguo e provisório que tem a virtude de
indicar que não sabemos bem onde estamos,
mas sabemos que as velhas bússolas já não
são capazes de nos orientar.
Os tradicionais explicitaram seus
pressupostos, mas não se preocuparam em os
justificar. Os modernos passaram séculos
tentando fundamentar racionalmente as bases
do seu pensamento, até terem que admitir que
os pressupostos de uma teoria não são
sujeitos à prova, pois ele sempre estão para
além da própria teoria. A modernidade tardia
teve que capitular, reconhecendo o vazio
dessas tentativas de fundamentação, pois
seria logicamente impossível fundamentar o
fundamento último.
O processo de superação desse trauma é duro
e ainda está em pleno desenvolvimento. Na
arte, ele significou um rompimento com a
função representativa da arte, ligando-a
mais à expressão ou provocação de
sentimentos do que à representação de algo
ou do Belo. Na filosofia, ele levou a
conjecturas como as de Deleuze e Guattari,
que consideram o filósofo como um criador
de conceitos e não como alguém que
contempla o mundo.
Nesse meio termo, certas concepções tentam
reconstruir a modernidade em novas bases,
buscando novos pontos de objetividade na
qual se possa construir um critério único de
verdade. Popper tentou substituir a falida
comprovação da verdade por uma comprovação
objetiva da falsidade. Kuhn introduziu uma
noção de paradigma que implica a idéia de
que, exceto em situações excepcionais de
giro paradigmático, existe um conjunto de
concepções apto a servir como critério
suficiente de verdade. Em certo sentido,
essas concepções representam a continuidade
da busca de um chão firme em meio às idéias
transitórias, da busca de uma objetividade
possível, em meio à instabilidade de
sentidos.
O homem da modernidade tardia era um homem
cindido, como Weber ou Goethe, como os
pré-rafaelistas e os neojusnaturalistas.
Eles eram forçado a reconhecer o
desencantamento do mundo, mas esse
desencantamento era sentido como uma falta.
O mundo, sem um conjunto de idéias que lhe
atribua um sentido, é um lugar que para
muitos pode parecer demasiadamente árido.
Em grande parte, o romantismo do século XIX
pode ser visto como a projeção do sentido em
um passado idealizado, em um tempo anterior
à modernidade e à própria razão. Frente a
uma razão que se sabe (ou intui)
fragilizada, muitos buscaram suas forças em
outras fontes: tradição, sentimento, paixão,
instintos. Mas os românticos não eram
medievais: eles viviam em dois mundos e
sabiam que eles eram incompatíveis.
Nunca vi tamanha repetição da palavra
racionalidade como na introdução de Weber ao
célebre ensaio “A ética protestante e o
espírito do capitalismo” (1905), na qual ele
tenta caracterizar a racionalidade
como uma peculiaridade da cultura européia,
não percebendo que a racionalidade européia
é apenas uma das perspectivas possíveis de o
homem lidar com suas próprias experiências.
Essa quase litania da racionalidade não
poderia surgir senão em contextos de crise,
que exigem afirmação ou a reafirmação das
crenças fundamentais. E tudo duas décadas
depois de Nietzsche ter escrito o seu
Zaratustra, proclamando a morte da Razão
moderna.
Na filosofia do direito, creio que a
manifestação mais clara dessa cisão está na
teoria pura do direito de Kelsen. Após
insistir em uma fundamentação neokantiana da
norma fundamental, Kelsen passou a afirmar
que o fundamento do direito é hipotético,
chegando mesmo a reconhecer, em obra não
publicada em sua vida, que a norma
fundamental não passa de uma ficção
epistemológica.
Essa consciência kelseniana traduz, de modo
acabado, a cisão do pensador moderno: uma
teoria moderna sempre pretende falar sobre o
mundo e, portanto, precisa supor que o mundo
existe e pode ser conhecido. Mas essa
pressuposição é percebida como ingênua e
insustentável. Então, já que a razão não
oferece bases sólidas para a construção da
teoria, é preciso, é preciso fingir
que essas bases existem, para ser possível
um discurso científico porque racional. E
outro não é o sentido da ficcionalidade da
norma fundamental.
Essa situação de cisão interna, de
reconhecimento do limite da razão e do
inconformismo com esse próprio limite, tem
seus reflexos também na arte, especialmente
quando ela se desvinculou do Belo ou do
Sagrado. Até hoje, muitos sentem a ausência
de beleza nas obras de arte como uma perda,
talvez irreparável em virtude dos tempos,
mas uma perda a ser sentida e quiçá
lamentada. Esse fato pode ser percebido na
pintura abstrata de Kandinsky, na música
dodecafônica de Schoenberg, na literatura
contemporânea de Joyce.
Então não há critérios objetivos para
definir o que é arte? Não mais do que para
definir o que é verdade. A superação do
pensamento tradicional (e a modernidade não
passa de uma tradição) sobre o próprio
pensar passa necessariamente pela superação
da própria necessidade de fundamentar. É
preciso admitir, sem amargura, que nosso
pensamento carece de bases sólidas e que não
há um critério objetivo de verdade. Sem
isso, estaremos reconstruindo a armadilha
moderna, de identificar com a razão
os critérios que nos parecem naturais.
Todos os modernos caíram nessa tentação ao
tentar fundamentar os valores básicos, como
a Verdade e Ética.
Se o pensamento não é fundamentado, então
ele não representa uma verdade, mas
pode instaurar uma verdade, assim
como um pintor pode instaurar uma
nova estética, como fez Kandinsky ao
inventar a pintura abstrata ou Picasso e
Braque ao inventarem o cubismo a partir da
inspiração de Cézanne. Mas, se as teorias
científicas não são representacionais, elas
são o quê?
Toda teoria é uma metáfora e toda metáfora é
um “poema em miniatura”[12].
E a poesia não representa a beleza que está
no mundo, mas inaugura uma beleza própria,
que somente existe dentro do universo da
própria poesia. Inclusive, belos sentimentos
costumam inspirar muitos maus poemas, como
dizia Wilde com outras palavras.
A teoria é algo que se cria, algo que se
instaura, algo que não precisa de
justificação externa a ela mesma. Em
especial: a falta de fundamentação não é um
problema para a poesia porque a poesia, como
o amor, não busca fundamentação. Ambos
limitam-se a existir, e perguntar-se sobre
os motivos que levam uma poesia a ser bela é
como perguntar-se sobre os motivos que levam
uma pessoa a amar outra. A resposta pode ser
uma bela teoria, que elabore um sentido para
aquilo que não tem.
Se toda teoria é uma metáfora, então a
explicação da teoria é uma metáfora sobre a
metáfora. Mas não vale a pena cunhar o termo
meta-metáfora porque, além de redundante,
ele seria equivocado. A teoria é uma teoria
de alguma coisa e, portanto, faz sentido
falar em uma metateoria. Já a metáfora não é
metáfora de alguma coisa, mas a criação de
um sentido novo. Como afirma Ricoeur, as
metáforas não são traduzíveis porque criam o
seu próprio sentido. Elas podem ser
parafraseadas, mas “uma tal paráfrase é
infinita, incapaz de exaurir o sentido
inovador”[13].
Portanto, a metáfora de uma metáfora é uma
metáfora nova, com novos sentidos.
O problema da modernidade é que ela tentou
fazer da ciência uma paráfrase, sem perceber
que, no fundo, estava construindo metáforas.
E toda metáfora é perigosa, pois carrega em
si possibilidades imprevisíveis de
significação, como os aforismos de
Nietzsche. Mas nesse perigo resta sua
própria força, pois “não existem fatos, só
interpretações”.
Na falta de um acesso direto que nos permita
mostrar o mundo como ele é (uma espécie de
paráfrase), construímos um discurso teórico
que é a instauração de uma descrição
lingüística do mundo. Então, toda teoria
pode ser vista como um mapa de um terreno
imaginário, como o Aleph de Borges ou as
cidades invisíveis de Calvino.
A metáfora cartográfica, muito presente nas
teorias de Deleuze e Guattari[14]
e atualmente retomada por Boaventura,
parece-me a mais adequada para organizar
nossos conhecimentos acerca do conhecer.
De acordo com esse modelo de compreensão,
conhecer é (ou é como se fosse) traçar
mapas. Creio que a principal virtude dessa
perspectiva é evitar uma das maiores fontes
de distorções ideológicas no campo da
ciência, que é a quase onipresente confusão
entre o conhecimento e o mundo.
Como os mapas evidentemente não são o mundo,
mas uma representação resumida e
esquematizada daquilo que chamamos de
realidade, a metáfora cartográfica ao menos
põe um freio na nossa tendência idealista de
resumir a coisa ao modelo que elaboramos
para representá-la.
Além disso, ninguém imagina que um mapa cai
do céu ou que está presente, imutável, em
alguma espécie de mundo das idéias
platônico. O mapa é sempre uma construção
humana, tal como o conhecimento.
Também nos é muito razoável a idéia de que é
preciso haver vários mapas sobre um mesmo
terreno. Mapas que podem ter escalas
imensas, quase 1:1, e acentuar todos os
detalhes de uma determinada situação,
evidenciando, por exemplo, cada curva de
nível existente em um determinado monte.
Eles podem ter escalas medianas, nas quais
as peculiaridades de um determinado monte se
perdem, mas é possível enxergar a serra
traçando os seus caminhos sinuosos. E podem
ter escalas mínimas, chegando ao extremo do
mapa-múndi, em que nada resta de particular
na representação.
Cada mapa desses serve a funções diferentes
e representa coisas diversas. Um mapa
físico, um político, um hidrográfico, um
histórico, cada um deles tem o seu espaço e
ninguém é louco o suficiente para afirmar
que um deles é absolutamente melhor que os
outros. O que se espera é que cada um deles
cumpra bem algumas funções específicas.
Como não faltam pessoas para defender a
primazia de uma determinada forma de
conhecer (normalmente chamada de científica)
ou que pretendem construir teorias que
abranjam todas as facetas de um mesmo
problema (como se o conhecimento fosse um
inútil mapa de escala 1:1), a metáfora
cartográfica parece-me oferecer um modelo
extremamente produtivo para pensar o
processo de conhecimento.
Especialmente porque a cartografia não
possibilita apenas a elaboração de mapas
individuais, mas também o estabelecimento de
relações entre os mapas existentes, para
retirar deles os conhecimentos relevantes.
Essas relações, obviamente, não vêm prontas,
mas precisam ser estabelecidas pelo
intérprete. Se essas relações são possíveis,
é porque somos capazes de enquadrar os
diversos mapas em uma visão mais abrangente,
que sirva como base para que sejam
identificados os pontos de contato e de
afastamento. Na nossa metáfora cartográfica,
essa visão mais abrangente somente pode ser
identificada como um outro mapa.
Esse metamapa (ou seja, uma cartografia de
mapas e não de terrenos), por sua vez, pode
abranger uma determinada região da
cartografia, mas provavelmente ele não será
capaz de abranger todos os mapas do mundo.
Então, é possível imaginar um meta-metamapa[15]
(ou seja, um mapa de mapas de mapas), que
tente ser ainda mais abrangente, servindo
como ponto de encontro dos vários metamapas
parciais. No limites, teríamos um
meta-meta-meta-metamapa, ou seja, o mapa
mais abrangente e genérico que se pode
imaginar, que deveria representar o terreno
comum entre todas as cartografias.
Esse mapa dos mapas, que seria uma espécie
de mapa-múndi do conhecimento humano, por
ser demasiadamente geral, teria um
baixíssimo grau de detalhamento. E, se não
fosse assim, seria inútil, pois o excesso de
minúcias tornaria o mapa tão imenso que
impediria a qualquer intérprete a formação
de uma visão de conjunto.
Porém, apesar de sua generalidade, o
supermetamapa teria que ser tão amplo que
não caberia em uma folha só. Assim, nós
somente o encontramos de forma fragmentada,
como uma série de pedaços. Ocorre, porém,
que as suas várias partes não formam um todo
muito coerente[16].
Isso se explica pelo fato de que os vários
mapas específicos que ele precisa topografar
não são homogêneos e dizem coisas
contraditórias. O mapa da poesia não diz
sobre o homem o mesmo que o mapa da
medicina. E menos ainda o mapa da poesia
brasileira não diz sobre a mulher o mesmo
que a psicanálise freudiana.
Não custa relembrar que o supermapa não é um
composto dos mapas individuais: os mapas
individuais cartografam topografias e os
metamapas cartografam cartografias. Como
eles têm objetos diversos, embora
relacionados, não se pode esperar olhar para
o metamapa e ver, dentro dele, os
conhecimentos da física quântica. O que se
pode esperar é encontrar algumas noções que
dêem um espaço para a física quântica e a
relacionem com os outros conhecimentos,
possibilitando o diálogo entre os mapas
diversos.
Para dar conta de uma tarefa tão imensa, o
supermetamapa precisa ser contraditório
(pois guarda dentro de si muitos contrários)
e vago, repleto de ambigüidades e
potencialidades sutis de sentido. Se
tivéssemos que apontar o metamapa mais
próximo do supermetamapa, eu creio que ele
seria o da poesia em geral, com todas as
suas multiplicidades semânticas.
Visto com cuidado, o supermetamapa mostra-se
repleto de vazios e de sobreposições, de
símbolos imprecisos, de duplicações
inexplicáveis, de distorções muito evidentes
da realidade. Mas esse mapa, não deve ser
olhado muito de perto. Aproximar-se demais
dele é como mirar de muito perto uma
aparelho de televisão ou um quadro
impressionista: a imagem que esses
instrumentos proporcionam somente se revela
plenamente a partir de uma certa distância.
Esse grande mapa é o senso comum. Sua função
é ficar à distância e servir como base para
que dialoguem entre si os mapas mais
incongruentes (da poesia à física quântica),
oferecer algumas simbologias gerais que
terão ecos nos outros mapas (como a unidade,
a causalidade ou a simultaneidade), mas que
serão diversas em cada um deles,
especialmente nos de grande escala.
O sonho da ciência moderna era fazer um
grande mapa, perfeito, que substituísse essa
colcha de retalhos incongruentes por um mapa
sistemático e racional. Em lugar de
sobreposições e vazios, um espaço homogêneo
e contínuo. Em lugar de signos de conteúdo
variável, uma linguagem bem definida e sem
ambigüidades, normalmente identificada com a
matemática. Construída essa base sólida,
todos os outros mapas deveriam ser uma
especialização desse grande mapa: no fundo,
todos eles seriam parte do mapa.
Assim, é como se houvesse um grande mapa
geral, que pudesse ser apreendido em uma
escala muito pequena: um mapa-múndi do
conhecimento. A escala desse mapa, contudo,
poderia ser ampliada, incluindo os elementos
que foram inicialmente articulados em mapas
de escala um pouco maior (a física, a
biologia, a química, o direito). E poderia
ser ampliada ainda mais, englobando-se no
mapa características ainda mais específicas
(espeleologia, entomologia, pediatria,
lógica) e cada vez mais específicas (estudo
da formação de estalagmites, estudo da
reprodução de uma espécie de tubarões,
estudo das reações das crianças de seis anos
a um determinado agente alergênico, estudo
das implicações lógicas envolvendo uma
combinação entre os operadores deônticos de
obrigação e permissão, etc.).
Embora cada um desses mapas específicos
houvesse sido historicamente construído de
forma independente, deveria ser possível
unificá-los no grande mapa do conhecimento
científico. Imaginem a imensa satisfação do
primeiro homem a unificar os vários mapas
antigos e estabelecer o primeiro globo
terrestre. Após limitar as incongruências
dos mapas isolados, compará-los, descartar
as imperfeições, inventar modos de fazer
dialogarem perspectivas diferentes... A
unidade, essa idéia mágica que os
pré-socráticos buscaram na natureza, os
escolásticos em Deus, a modernidade na
razão: uma perspectiva única, que fosse
capaz de servir como chave de compreensão
para todos os mistérios do mundo.
Creio que a imagem arquetípica da ciência
contemporânea foi oferecida em uma série de
TV dos anos 80, voltada à divulgação
científica, chamada Cosmos[17]:
uma câmera focaliza a Via Láctea;
aproxima-se de um de seus braços, onde
encontra o sistema solar; daí, centra-se
gradualmente na terra, em um continente, em
um país, em uma cidade, em um bairro, em uma
rua, em uma pessoa, em uma mão, em uma
célula, em uma molécula, em um átomo, em um
elétron, em um fóton, etc. Cada um desses
elementos é visto como um close de um grande
e imenso mapa, que poderia ser infinitamente
ampliado (na medida da infinitude do
universo) ou reduzido (na medida da infinita
divisibilidade do espaço), mas que sempre
guardaria absoluta unidade com os
mapas intermediários.
Essa unidade completa é o objetivo máximo da
ciência moderna. A fragmentação do senso
comum é o principal limite posto a essa
unidade, e creio ser ela um limite que não
pode ser ultrapassado[18].
Portanto, em vez de distorcer ainda mais os
mapas, na tentativa de unificá-los, prefiro
a busca de cartografar os mapas e metamapas,
sabendo que esse processo é uma eterna
simplificação (não representamos, mas
esquematizamos o real), que ela é criadora
(traçamos e não descobrimos os mapas) e que
ela nunca leva a uma perfeita unidade
(utopia tipicamente moderna).
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miroslav milovic
Certeza
cognitiva existe na conclusão de Descartes:
“penso, logo existo”. A peculiaridade da
afirmação cartesiana se fará clara se
analisarmos a proposição “penso, logo não
existo”. Esta proposição, segundo Apel e
Habermas, é contraditória, não no sentido
semântico, mas no sentido pragmático. A
proposição contradiz as condições que a
tornam possível, condições que pertencem à
parte performativa dos atos de fala.
A
pragmática da linguagem de Apel e Habermas
pretende tematizar essa questão cartesiana,
não como a base de uma metafísica da
subjetividade, mas como a investigação sobre
as condições do sentido em geral. Tais
condições se expressam através da dimensão
pragmática, performativa dos atos de fala e
as pressupomos “desde sempre” em toda
afirmação explícita. No que concerne à idéia
da transformação de subjetividade prática
moderna, Descartes diz somente, “penso, logo
existo”, mas não diz “penso, logo existes”
ou “penso, logo alguém existe”. A certeza
moderna é uma certeza sobre o sujeito e não
uma certeza sobre os outros. A
modernidade começa afirmando uma nova
identidade. É a identidade do sujeito, é a
metafísica do sujeito. E essa metafísica
afirma o monologo do sujeito dentro da
questão sobre a racionalidade e o monologo
no social, no sentido do egoísmo liberal.
Modernidade como monologo – é a estrutura
dessa metafísica. E claro, se coloca a
questão: como pensar a democracia com este
monologo.
Pode ser que a perspectiva vai mudar no
contexto de uma certa radicalização do
pensamento moderno.
Kant, por exemplo, acredita que Descartes,
ao afirmar o sujeito, não está afirmando o
sujeito constitutivo, precisamente porque o
sujeito cartesiano não precisa constituir
nada, a não ser colocar as condições do
verdadeiro conhecimento. Aqui poderíamos
dizer que toda a força do idealismo alemão
está contida na pergunta acerca de como e se
poderíamos pensar o sujeito constitutivo, e
Hegel também está ao lado dessa perspectiva
da pergunta.
Todavia, Hegel alega que Kant, ao afirmar o
sujeito constitutivo, ainda permaneceu
dentro da relação cartesiana entre sujeito e
objeto que se propunha criticar, pois o
sujeito kantiano, assim como o cartesiano,
ainda está fora do objeto. A dignidade do
sujeito e da nossa razão ainda não se
encontrariam no mundo kantiano. Quando fala
sobre a nossa liberdade, Hegel acredita que
Kant irá cometer o mesmo erro, já que, ao
pensá-la, Kant vai limitá-la à nossa
interioridade e não ao mundo mesmo. Aqui,
Hegel acredita participar, como testemunha,
de um acontecimento político – a Revolução
Francesa - que mostra a sua idéia de que a
razão já se realizou no mundo. Segundo ele,
a Revolução mostra a razão no mundo, o mundo
governado pela razão; entretanto, Hegel
ainda não chega, ao menos nesse ponto, até
as dúvidas que Marx coloca sobre a própria
Revolução Francesa.
Hegel vai discutir a historia, os senhores e
os escravos e a idéia do reconhecimento. O
modelo do reconhecimento é uma mudança
importante dentro do pensamento moderno, o
qual tinha praticamente apenas o modelo da
autopreservação como alternativa. No
entanto, como o reconhecimento não existe
entre os senhores e os escravos, ele deve
ser estabelecido pela história, e é isso o
que a Revolução Francesa realiza no último
momento. Dela decorre o reconhecimento do
ser humano como tal, que deixa de ser
reconhecido sob os pressupostos naturais.
A
"Filosofia do Direito" procura reconstruir o
caminho da Modernidade, que começa com a
afirmação do direito natural, passa pela
moralidade kantiana - ao afirmar o sujeito
constitutivo -, e termina com a liberdade
concreta e realizada, dentro da discussão
sobre a eticidade. A "Filosofia do Direito"
reconstrói a história, apesar de ainda haver
povos sem história. Em suas palestras sobre
a filosofia da história mundial, Hegel vai
falar sobre a ausência de história, por
exemplo, na África. Os africanos ainda
estariam no nível do natural, sensual,
concreto não conhecendo o espiritual. Hegel
defende até mesmo a colonização deles,
porque assim conheceriam a liberdade. Hegel
prossegue, argumentando que, assim como os
escravos dos europeus, os africanos, uma vez
colonizados, só iriam amadurecer. Seu
discurso sobre a África não é somente um
episódio, mas reflete a estrutura básica de
seu pensamento, no qual o concreto, o
particular têm que ser superados para
afirmar a estrutura geral do espírito.
Assim, a vida imediata dos africanos tem que
ser mediada pelos europeus, o geral tem que
vencer o particular, o que implica que o
particular tenha que ser colonizado pelo
geral. Neste contexto, não precisamos pensar
apenas nos africanos na filosofia hegeliana;
podemos, por exemplo, procurar as mulheres
em sua filosofia e veremos que, para elas,
Hegel também reserva apenas o lugar do
natural, do concreto e da família, jamais o
da sociedade civil, na qual entram somente
os homens. Obviamente, essa exclusão das
mulheres não começa com Hegel, pois a
presenciamos já na filosofia dos gregos, e
em seguida, no discurso dos cristãos. Vale
lembrar que, na Sagrada Família Cristã, não
se encontram mulheres. Hegel simplesmente dá
continuidade a essa história falocêntrica da
Europa.
Como
vimos, a filosofia hegeliana mostra-se como
a afirmação do espírito colonialista. A
história é o lugar onde acontece o processo
da superação do particular e da afirmação do
geral, processo este no qual o particular é
dominado pelo geral. Trata-se da famosa
astúcia da razão que se realiza na história.
A história é, portanto, a cena da dominação;
de outro modo, a dominação se realiza na
história. Tendo em vista os motivos europeus
já mencionados e que Hegel coloca para a
discussão, poderíamos dizer que a dominação
tem características européias, o que pode
inclusive ser confirmado historicamente. A
globalização surgiu na Europa com o
movimento protestante, e hoje domina o
mundo. O mundo está cada vez mais realizando
tão-somente um tipo da racionalidade, e é
isso o que Hegel articula em sua idéia sobre
a identidade entre o sujeito e o objeto. O
mundo é dominado pela racionalidade
subjetiva, no contexto histórico dominado
pela racionalidade européia. O mundo
norte-americano nada mais é que uma
conseqüência disso. Pensando assim, Hegel
articula a essência da filosofia moderna,
que corresponde no último momento, à
tentativa de afirmar até as últimas
conseqüências a subjetividade moderna. A
dominação e a colonização do mundo são,
portanto, as últimas palavras da
Modernidade, e, por este motivo, temos que
nos perguntar qual é o preço a se pagar para
sermos modernos e entrarmos no mundo global.
Então, nem os pressupostos cartesianos, que
abrem o caminho da Modernidade, nem os
pressupostos hegelianos, que a radicalizam,
não articulam a possibilidade de pensar a
democracia. Democracia parece um projeto
moderno impossível.
Vamos
ver, então, se essa possibilidade aparece
dentro da confrontação com a Modernidade. É
possível mudar a relação entre o ser e a
aparência? É possível superar a hierarquia
nessa relação? Estas são as grandes
perguntas da fenomenologia de Husserl.
Parece que só a fenomenologia seria uma
resposta adequada, pois ela tenta superar
essa diferença entre a essência e a
existência, entre o ser e a aparência. O ser
só aparece, e não há outros lugares
“privilegiados” para colocá-lo. O pensamento
sem essências - esse é o grande recado da
fenomenologia. O mundo não é dado, mas
criado. A possibilidade é mais importante do
que a facticidade.
Em suas
várias discussões sobre política, Hannah
Arendt refere-se a essa dimensão da
discussão fenomenológica, nos ajudando a
compreender a importância histórica dessa
radicalização do cartesianismo dentro da
fenomenologia husserliana. Hannah Arendt
acredita que a separação platônica entre o
ser e a aparência marca um passo histórico
não só para a vida dos gregos, mas para todo
o caminho posterior da civilização. A
desvalorização da aparência e a afirmação do
ser são os aspectos da reviravolta na vida
dos gregos e do Ocidente europeu. Com isso,
tem início uma tirania própria da razão e
dos padrões na nossa vida. Isso é o que
Nietzsche diagnostica como o começo do
niilismo na Europa. A estrutura já
determinada, estática, entre o ser e a
aparência, tem conseqüências catastróficas
para o próprio pensamento. Ele se torna mera
subsunção das aparências às formas
superiores do ser. Nesse mundo tão ordenado,
quase não temos que pensar mais. O
pensamento não altera a estrutura dominante
do ser. Essa inabilidade do pensamento
termina nas catástrofes políticas do nosso
século. Tantos crimes, mas quase sem
culpados. O indivíduo que não pensa e se
torna cúmplice dos crimes: essa é a
banalidade do mal diagnosticada por Hannah
Arendt como a conseqüência dessa tradição
filosófica que quase mumificou a estrutura
do ser e nos marginalizou. Pode ser que a
democracia precisa de outro tipo de
pensamento. Pode ser que a crise da
democracia seja a crise do pensamento.
Uma
fenomenologia, propõe Husserl no começo da
Quinta e última meditação, “que pretendesse
resolver os problemas relativos ao ser
objetivo e se considerasse uma filosofia não
seria estigmatizada como solipsismo
transcendental.”[19]
Como o que é subjetivo pode valer também
como objetivo? Para resolver este problema,
Husserl, na última meditação, não pensará a
existência do mundo objetivo, mas a
existência dos Outros. Os Outros surgem na
filosofia basicamente como a possibilidade
de resolver a questão do solipsismo e não
como uma referência social. É curioso que
Husserl, mesmo confrontado, como ele
mencionou, com a profunda crise de nossa
cultura, não tomou nenhum motivo do
pensamento social.
Como
aparecem os Outros na fenomenologia? Melhor
dizendo, como os Outros surgem no momento em
que a filosofia reage como a crítica radical
da cultura, em que a filosofia se articula
como a alternativa para se pensar contra o
essencialismo tradicional? Pensar os Outros,
a comunidade, inclusive a democracia fora da
metafísica – estas poderiam ser as
alternativas abertas pela fenomenologia. Não
obstante, isso não aconteceu, porque a
experiência do Outro ficou ligada à nossa
consciência, ou seja, posso pensar o outro
tão-somente como análogo à minha
consciência; não existe uma experiência do
outro além da minha consciência. O sujeito é
a base para se pensar também os outros. Por
este motivo, Merleau-Ponty vai seguir a
fenomenologia no caminho em que aparecem os
corpos, em que se articula um encontro
pré-reflexivo com os Outros.
[20]
A reflexão não é, todavia, a possibilidade
de se pensar a intersubjetividade. Husserl,
contrariamente, defende que, com o novo
momento da reflexão, foi possível resolver a
questão do solipsismo; por conseguinte, a
estrutura da consciência revela não só o
ego transcendental mas também a
intersubjetividade, duas estruturas
essencialistas da fenomenologia. “Existem em
tudo isso leis essenciais ou um estilo
essencial, cuja raiz se encontra no ego
transcendental, de início, e na
intersubjetividade transcendental que o
ego descobre em si (...)”.[21]
Os Outros poderiam
ser a garantia contra o solipsismo, mas
também são os signos de que não
podemos realizar o projeto de uma
subjetividade pura na filosofia. Entretanto,
Husserl não tirou essas conseqüências do
argumento.
O
problema é ainda mais complexo porque
Husserl, aqui, não termina a discussão, pois
o último passo da fenomenologia não é a
prova da intersubjetividade, mas a
articulação das perspectivas de um novo
humanismo. Estamos, sem dúvida, em uma crise
profunda. Esquecemos a nossa vida, a fonte
doadora do sentido, reduzimos nossa
consciência e estamos seguindo o caminho de
um pensamento reificado.
Estamos pensando, juntamente com a ciência,
o que é e não o que poderia ser.
Abdicamo-nos de pensar as alternativas.
Nosso pensamento é tão somente a pura
repetição do mesmo. Por causa disso temos
que voltar para a filosofia, para a pergunta
sobre o espiritual em nossa vida. Até aqui
poderíamos concordar com a critica
fenomenológica. Mas, continua Husserl, “a
crise’ da existência européia só tem duas
saídas: ou o ocaso da Europa em um
distanciamento de seu próprio sentido
racional da vida, em um afundamento na
hostilidade ao espírito e na barbárie, ou o
renascimento da Europa a partir do espírito
da filosofia mediante um heroísmo da razão
que triunfe definitivamente sobre o
naturalismo”.[22]
Voltar para o espírito, para a sua
imortalidade é a “missão humana do Ocidente”[23].
Quer dizer, só as mudanças na Europa são
pressupostos de um novo humanismo, e a China
e a Índia, por exemplo, são sobretudo os
exemplos de um antropologismo empírico[24],
e não de uma forte referência espiritual. O
espírito está ligado apenas à Europa, e não
à China ou à Índia. O Brasil nem sequer é
mencionado por Husserl. Obviamente, trata-se
do retorno a um claro eurocentrismo, que
encontramos também em Hegel. Assim, a dúvida
sobre a fenomenologia se concretiza: é
possível pensar o novo humanismo com a
filosofia ainda ligada ao sujeito, sobretudo
ao sujeito europeu? Mesmo confrontando-se
com o essencialismo na filosofia, Husserl o
afirmou novamente. Um novo humanismo teria,
acredito, que questionar o essencialismo até
as últimas conseqüências e, em lugar do
sujeito, em lugar dessa forma moderna da
identidade,
pensar a diferença. O novo
humanismo poderia ser, então,
o pensamento da
diferença.
Veremos, a seguir, se a superação do sujeito
e a afirmação da diferença já se encontram
na idéia habermasiana da intersubjetividade
e da democracia deliberativa. É outra
possibilidade de confrontar-se com a
modernidade.
Habermas irá afirmar que todos os atos de
fala possuem uma dupla estrutura. Por um
lado, possuem uma parte proposicional e, por
outro, possuem as condições de afirmação da
proposição. Essas condições estão ligadas,
por sua vez, a existência de uma comunidade
de comunicação real e ideal. Essa dimensão
não podemos evitar e Apel, por exemplo,
buscará aqui uma nova fundamentação
transcendental para a filosofia. Trata-se de
um argumento que visa pensar as novas formas
de certeza, pois mesmo os céticos têm que
argumentar para articular qualquer dúvida;
enfim, as condições da argumentação não
podem ser superadas.
Assim, parece que faz sentido procurar os
fundamentos. Essa é a tentativa moderna em
torno da questão da razão. Somente a
modernidade ainda não chegou à resposta,
pois ela ainda é um projeto. Todavia, ao
menos temos uma orientação. A certeza não é
mais semântica e subjetiva, mas pragmática e
intersubjetiva. A dimensão pragmática revela
a presença da comunidade, da
intersubjetividade. Habermas é ainda
moderno, mas a mudança de paradigma já
aconteceu. Em lugar da subjetividade, temos
a intersubjetividade. Além da relação entre
sujeito e objeto, temos agora uma relação
intersubjetiva como a base da racionalidade.
A intersubjetividade é, assim, a base de uma
sociedade racional. Neste contexto, Habermas
apresentará também a questão da legitimidade
social. “Legitimidade significa que há bons
argumentos para que um ordenamento político
seja reconhecido como justo e equânime; um
ordenamento legítimo merece reconhecimento.
Legitimidade significa que um ordenamento
político é digno de ser reconhecido”.[25]
Se uma sociedade é o resultado das
estratégias particulares, isso significa que
ela ainda não atingiu a própria
racionalidade. Habermas pensa que hoje a
questão da racionalidade da sociedade não é
ligada à classe operária, mas às
possibilidades das decisões coletivas. As
questões da ética e da política são também
ligadas às possibilidades da universalização
das normas. Somente aquelas normas são
válidas que podem ser universalizadas[26].
Então, quais são motivos para se reconstruir
a teoria social, a crítica social e a
crítica do capitalismo a partir das
possibilidades lingüísticas? O capitalismo
tem uma linguagem? Ele tem uma estrutura
lingüística? É ele uma forma semiológica?
[27]
Habermas também poderia dizer que o
capitalismo é uma estrutura lingüística,
determinando as condições do sentido, da
liberdade, etc. Assim, o capitalismo é uma
estrutura semântica que não articula as
possibilidades pragmáticas. Ou, melhor
dizendo, o capitalismo é um mundo muito
prático, onde acontecem muitas coisas porém
não é um mundo pragmático, que abre
possibilidades para uma afirmação da
comunicação, da democracia e da
solidariedade baseadas na intersubjetividade.
A teoria de Habermas é um olhar marxista que
mostra a partir de que perspectiva criticar
o positivismo capitalista.
Quase poderíamos formular aqui uma crítica
hegeliana ao capitalismo, se entendermos que
a satisfação do desejo, na concepção de
Hegel, não está ligada ao mundo dos objetos,
ao contrário do que o capitalismo está
sugerindo, pois, para o capitalismo, o
mercado é o lugar da satisfação dos desejos,
e – claro -, o mercado sempre tem que
funcionar. No último momento, isso leva a
que os desejos nunca possam ser satisfeitos,
já que o capitalismo, por um lado, estimula
os desejos e, por outro, nunca os deixa
satisfeitos. Contra isso, Hegel vai afirmar
que a satisfação dos desejos não está ligada
ao mundo objetivo, natural, mas ao mundo
social, intersubjetivo, e é precisamente
esta idéia da intersubjetividade que será
depois, para Habermas, um motivo forte para
confrontar-se com a Modernidade.
Uma
eventual mudança do capitalismo tem que
estar também ligada a uma mudança de
paradigma. A intersubjetividade é, assim, a
referência para a questão da fundamentação.
Trata-se de um projeto moderno que
permaneceu apenas como projeto. Habermas não
tem uma visão muito pessimista da
modernidade. A razão é ainda uma
possibilidade . O ponto característico da
época moderna, diz Habermas, é “a
transferência do poder legítimo para um
nível reflexivo da justificação.”[28]
Entretanto, em vez de pensar o sistema,
Habermas, tendo em vista o grande motivo
fenomenológico, se volta para o mundo da
vida, com o qual ele associa a comunicação
não-reprimida. Liberar o mundo da vida da
colonização sistêmica[29],
liberar a comunicação e o olhar crítico,
abrir as possibilidades para as alternativas
– eis os apelos que se pode extrair de sua
posição.
Voltar para a ação, para os seres humanos
como atores da própria história. A
pragmática universal de Habermas mostra que
é possível pensar uma teoria da
racionalidade fora do sistema.
Institucionalizar as formas da comunicação,
o que seus últimos trabalhos discutem,
significa a possibilidade de articular uma
sociedade auto-reflexiva que é capaz de
repensar as condições da própria
constituição e confrontar-se, assim, com a
ideologia.
Pensando uma sociedade auto-reflexiva,
poderíamos dizer que se realiza algo do
projeto da revolução permanente; enfim, se
realiza uma crítica permanente da sociedade.
Isso é o que os sistemas comunistas
esqueceram completamente. Assim, nenhuma
revolução terminou com sucesso porque não
era permanente. Pelo contrário, o comunismo
transformou a vida em uma nova forma de
estática, uma nova forma da identidade. O
comunismo só seguiu o velho caminho da
metafísica. O comunismo sem a metafísica
poderia vir a ser um projeto para o futuro.
Na
perspectiva da cultura alemã parece que
Habermas quase muda, por exemplo, a
perspectiva dos argumentos. Em lugar de
afirmar os pressupostos da própria cultura,
parece que Habermas está filosofando como se
fosse um americano na Alemanha. A idéia da
filosofia da comunicação é exatamente a
mediação entre uma comunidade particular e
real da comunicação e as condições ideais da
comunicação, que se aceitam como uma idéia
regulativa para todos os discursos em que
estamos inseridos. Aqui se reconhecem duas
conseqüências. Primeiro, as regras da
comunidade ideal da comunicação são quase as
novas formas do dever. De novo o ser tem que
superar os próprios limites. Neste sentido,
Habermas, ao que parece, começa como um
filósofo americano na Alemanha, mas termina,
por fim, como um bom filósofo alemão, quase
como um bom hegeliano. A intenção da
filosofia da comunicação é a de superar a
metafísica, inclusive a metafísica hegeliana;
entretanto, parece que ela guarda alguns
aspectos da metafísica moderna. Nesse caso,
a diferença entre o dever e o ser configura
a primazia do dever, o dever de realizar as
condições da comunidade ideal da
comunicação.
A
pergunta consiste em discutir a
possibilidade de se pensar o particular nas
estruturas éticas, ou, como parece, se os
assuntos éticos estão sempre relacionados
com a elaboração das normas, das estruturas
gerais de nosso comportamento prático. Esse
questionamento sobre a perda do particular
dentro da filosofia da comunicação provocou
várias dúvidas, especialmente na América
Latina. A pergunta é se e como a ética da
comunicação, a ética do discurso, pode ser
aplicada ao contexto específico da América
Latina.[30]
Habermas quer superar o modelo hegeliano em
que, como a Fenomenologia do Espírito
estabelece, a assimetria das relações
sociais pensada na história sobre os
senhores e escravos elabora as
possibilidades da história e da constituição
do mundo especificamente humano. Em lugar da
assimetria hegeliana, Habermas quer propor a
simetria das relações sociais. Mas essa
simetria que parece abrir espaço para vários
interlocutores, inclusive a América Latina,
também limita as condições da comunicação. O
Outro é tematizado como eu.
Habermas estabelece assim uma idéia de
simetria social, que pode ser compreendida
também como uma idéia regulativa para
constituir a nova sociedade racional do
futuro e, assim, terminar o projeto moderno.
Esse é um aspecto importante, penso, da
posição de Habermas. Mas essa simetria supõe
as novas formas gerais do dever que não se
articulam ao particularismo do outro.
O indivíduo precisa ser superado nas novas
formas gerais da comunicação ideal e, assim,
permanece aberta a interrogação se o
outro, o particular, é um interlocutor
constitutivo. Alguns autores tiram daqui a
seguinte questão: se todos devem aceitar, no
último momento, as novas condições da
racionalidade moderna, européia.
[31]
O Outro é como eu? A ética pode
determinar o outro como eu, no
sentido dessa perspectiva da filosofia da
comunicação? Como, por exemplo, pensar os
outros na discussão da reforma agrária
aqui no Brasil? É possível uma solução
discursiva entre os latifundiários e os
sem-terra?
Parece
que toda a história da filosofia comete uma
injustiça profunda, tematizando várias
formas do Mesmo e esquecendo o Outro. Como
tematizar o Outro? Podemos imaginar a
relação de simetria entre Mesmo e Outro, mas
neste caso, a dúvida é se assim se afirma a
posição autêntica dos outros. A
alternativa seria a posição assimétrica em
favor do Mesmo, o que a filosofia representa
até hoje. A terceira alternativa seria a
assimetria em favor do Outro.[32]
Essa é a perspectiva de Lévinas.
Para
elaborá-la, Lévinas parte da confrontação
com Husserl e Heidegger. A importância
histórica da fenomenologia é a de ter
identificado ser e aparência, de ter
liberado a filosofia das estruturas
dominantes. A consciência é um ato e não uma
coisa (res cogitans). Pensar é
simplesmente existir e, neste caso, Lévinas
vai afirmar a fenomenologia como a filosofia
da liberdade.
[33]
Nos atos intencionais constitui-se também o
prático e, neste contexto, Sartre afirmará a
idéia de liberdade, ao passo que Hannah
Arendt irá procurar as novas possibilidades
de se pensar a política fora do mundo das
essências. Entretanto, Husserl permanece na
Modernidade, na relação entre o sujeito
constitutivo e o objeto. O Outro é
pensado só por analogia ao Mesmo.
A
crítica de Lévinas segue a crítica de
Heidegger contra Husserl. Mas também dentro
da filosofia de Heidegger, Lévinas não
encontra a possibilidade de afirmar o Outro.
A estrutura existencial do ser-aí
permanece fechada no seu próprio mundo; a
possibilidade da intersubjetividade torna-se
apenas uma “promessa” que Heidegger nunca
vai elaborar. No final das contas, o
ser-aí fica sozinho. Ética e política
não aparecem na filosofia de Heidegger . Sua
filosofia não é a filosofia dos Outros, dos
emigrantes.[34]
Uma forma de egoísmo, talvez o egoísmo
europeu, determina a posição de Heidegger.
“Para ele é central a Europa e o Ocidente.
Há toda uma geopolítica em Heidegger.”
[35] Também a
estrutura hermenêutica do ser-aí
revela esse aspecto. Em todos os atos de
compreensão, temos que pressupor nossa
existência. A compreensão é sempre uma
auto-compreensão. Heidegger quer destruir a
idéia do sujeito, mas, de novo, o ente, o
Outro, depende do ser, do sujeito.[36]
A
diferença ontológica entre o ente e o ser
precisa ser superada exatamente com as
estruturas éticas que faltam em Heidegger.[37]
Este é o ponto em que Lévinas radicaliza a
idéia da destruição heideggeriana da
tradição metafísica. O que fundamenta a
filosofia é o Outro, a diferença.
Somente o Outro pode ser diferente. O Outro
não aparece como uma postura da consciência.
A consciência afirma só o sujeito, o Mesmo,
e não pode ser o lugar da afirmação do
Outro. Por causa disso, M. Merleau-Ponty
transforma a fenomenologia em uma afirmação
do corpo. Aqui, de novo, aparece essa
corporalidade, essa fragilidade do Outro na
discussão sobre o rosto"..o Rosto não é
absolutamente uma forma plástica como um
retrato; a relação ao Rosto é, ao mesmo
tempo, relação ao absolutamente fraco – ao
que está absolutamente exposto, o que está
nu e o que é despojado, é a relação com o
despojamento e, por conseguinte, com o que
está só e pode sofrer o supremo isolamento
que se chama morte”.[38]
O rosto nos abre a nudez sem defesa do
Outro, a sua miséria, a sua mortalidade.
Tudo
isso significa, para Lévinas, que uma ética,
hoje em dia, não pode ser elaborada com a
idéia da razão, mas com a idéia da
sensibilidade. A ética é uma nova
sensibilidade para os outros. A
subjetividade se fundamenta nessa
heteronomia. Isso é um contexto antikantiano,
pois os fundamentos da ética não estão na
autonomia da razão, mas na heteronomia,
nessa responsabilidade fundamental para com
os outros. Isso é também um contexto
antihabermasiano, porque o Outro é o
pressuposto da comunicação. A linguagem só
existe, ou apenas precisamos dela, caso
exista o Outro. A essência da linguagem está
nessa hospitalidade com relação a ele.
A
política nos chega do Outro, do estrangeiro.
A relação com o Outro é a justiça, é a
sociedade. Na tradição, a injustiça
filosófica tinha também conseqüências
políticas. As guerras são sempre a negação
dos outros. Os Outros quase sempre eram os
inimigos. Os inimigos assim justificam a
política do Estado. Ficar hoje sem os
inimigos significa para alguns Estados ficar
sem política. A política, no sentido de
Lévinas, afirma a diferença. Neste sentido,
ela é o signo de uma nova democracia. O
pressuposto para democracia não é a
identidade. O pressuposto é a desconstrução
dela. O pressuposto da democracia é a
diferença. É a questão da igualdade política
baseada nessa desigualdade, por exemplo,
ética, como no caso de Lévinas. O sentido da
política não é, assim, a afirmação da
identidade. O sentido da política é, pelo
contrario, questionar a identidade. Com a
identidade não poderia acontecer nada de
novo no mundo. O mundo não seria o mundo da
liberdade., mas da reprodução, no sentido
capitalista. O sentido do capitalismo, não é
a produção, o novo, mas a reprodução. Por
isso temos tantas maquinas, tanta técnica no
capitalismo. As maquinas podem só reproduzir[39]
o sentido capitalista.
Espero
que essa afirmação da diferença signifique
que a filosofia não possa ser compreendida
como a nova forma de autismo . Após o
monólogo do sujeito moderno, parece que hoje
temos o monólogo do indivíduo pós-moderno.
Afirmando a diferença, a filosofia
ajuda a pensar algo novo . Ajuda a sair do
deserto do pensamento metafísico, onde não
aparecem coisas novas mas se repetem as
estruturas dominantes. Não há nada de novo
na história, conforme nos fazem lembrar as
palavras hegelianas. Não ha nada de novo no
social, como dizem os novos hegelianos da
direita. Temos só a reprodução do
capitalismo.
Nessa
confrontação com a metafísica, o herói para
filosofia não será Zaratustra ou alguma
forma de resistência estética, que Foucault
e Baudrillard ainda procuram, e sim Abraão e
a tradição judaica.[40]
Os judeus são como os outros,
que o cristianismo não aceita. Assim, o
anti-semitismo começa dentro do
cristianismo. Nessa linha de pensamento,
Hegel dirá que os judeus não têm nada de
espiritual e não reconhecem o infinito. Não
sabem nada sobre essa estrutura especulativa
do pensamento, sobre essa história em que o
pai se transforma no filho e se guarda a
espiritualidade anterior. A moralidade
objetiva da Filosofia do direito
começa com a idéia do amor da família
cristã. Em nome do amor, Hegel mostra ódio
para com os judeus. A solução final de
Hitler já está, neste sentido, preparada
dentro da tradição européia. Claro, a
diferença não é a identidade diferente, não
são os judeus que excluem os palestinos.
Hoje o
sistema isola, atomiza o indivíduo. Por isso
seria importante pensar as novas formas da
comunicação. Mas o sistema também nega o
indivíduo. O capitalismo começa
desenvolvendo as formas gerais. Na economia,
por exemplo, mudam-se os valores de uso
concreto e qualitativo, para os valores de
troca geral e quantitativa. Na filosofia
aparece o sujeito geral, e não o indivíduo.
Então, a diferença é uma forma da crítica.
Afirmar o indivíduo, não no sentido
neoliberal e egoísta, mas no sentido dessa
idéia da diferença, é um argumento crítico.
Em virtude disso, dessa discussão sobre a
filosofia, a democracia e o social surgem,
penso, dois momentos importantes: o primeiro
é pensar uma comunidade auto-reflexiva e
confrontar-se, assim, contra as novas formas
da ideologia. Isso é o que Habermas vem
fazendo. Mas, por outro lado, a filosofia
precisa da sensibilidade para o diferente,
senão repetirá apenas as formas do idêntico
e, assim, fechará as possibilidades do novo,
do espontâneo e do autêntico na história.
Esse é o projeto de Derrida. Espero que seja
possível um diálogo entre as duas posições
em que, como diria Gadamer, ninguém tem a
última palavra. Desse modo, o projeto que
sai dessa leitura habermasiana e derridiana
da filosofia poderia ser talvez o de uma
nova comunidade auto-reflexiva da diferença.
Uma comunidade, uma democracia que talvez
chegue.
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cesare giuseppe galvan
Toda vez que o sentido de um
debate depende do valor fundamental da palavra
útil, [...] é possível afirmar que o
debate é necessariamente falseado e que a
questão fundamental é eludida. (BATAILLE, 1975,
p.27)
... as
novas forças econômicas têm como efeito
secundário destruir ou enfraquecer todos os
"coletivos", da família aos sindicatos,
dissolver todos os laços de solidariedade,
especialmente aqueles construídos contra a
lógica bárbara do lucro puro, como as
associações de ajuda mútua etc. (Pierre BOURDIEU)
Antes de introduzir o tema,
seja permitido apresentar uma visão não usual de
como a economia como ciência se desenvolveu na
história. A formulação é referida em Godbout e
Caillé (1999, p.160). Esses Autores seguem e
citam a tradição daqueles distinguem "duas
maneiras de pensar" em economia. Por um lado, a
que a economia clássica inglesa encarna,
rematada por K. Marx e mais recentemente por
Sraffa; por outro, o projeto da economia
neoclássica. Os verdadeiros continuadores da
economia clássica, diz Gregory, não são os
neoclássicos, mas L. H. Morgan, M. Mauss, e C.
Lévi-Strauss.
A razão
é que esses Autores, infelizmente bem pouco
familiares aos economistas de hoje, pesquisam as
"leis de funcionamento de um sistema social
global", programa que foi o dos clássicos e
sobre tudo de Marx. A seguir, vamos considerar
algumas dessas contribuições.
Comecemos por uma expressão
popular: me dá um dinheiro ai.
Parece estranho, mas essa
frase implica uma contradição: o dinheiro
insere-se na sociedade não para realizar
doações, dádivas, mas para substituir relações
econômicas de outra natureza: dentre as muitas
relações humanas que foram eliminadas
salienta-se sobre tudo a dádiva (o “me dá”), um
relacionamento humano que caracterizou grande
parte das articulações sociais em épocas que
precederam a introdução da moeda.
Com a difusão de relações monetárias, esses
outros processos sociais – sobre tudo a dádiva –
são substituídos pelo processo aparentemente
mais "simples" da compra-venda, que é um
procedimento mais prático e possui, além disso,
a vantagem de ser mais conforme com a "oração de
São Francisco": é dando que se recebe.
Outra implicação dessa
novidade (aliás bastante antiga) é que, ao se
introduzir o relacionamento monetário, a relação
humana implicada numa troca se conclui em si
mesma, quase se fecha: deu, recebeu, acabou.
Nenhuma implicação recíproca ulterior entre os
personagens do evento continua a subsistir uma
vez realizada a compra com o respectivo
pagamento. Já paguei pelo que recebi, nada mais
devo. E do outro lado: já entreguei a mercadoria
que me compraram, nada mais devo. Essa é a
linguagem do mercado. Note-se: no processo
mercantil a relação humana é o oposto da dádiva,
que sempre estabelece relações duradouras entre
as pessoas, deixando algo da alma humana quase
que inerente aos objetos que serviram para
realizar o ciclo de dar, receber, retribuir. Um
ciclo que se repete, dando continuidade às
relações interpessoais expressadas nos dons,
conforme a ampla análise e exemplificação que se
encontram no clássico te |