Página inicial

 

 

Escola de Formação Política Miguel Arraes

 
  Pagina inicialContato

 

:: Programação

:: Debates

:: Cursos

:: Fundação

sociedade e diferença

 g r u p o  d e  p e s q u i s a 

p e n s a m e n t o  s o c i a l

Segundo Movimento - Subjetividades Contemporâneas

1. Entre a subjetividade e a diferença:notas foucaultianas

wanderson flor do nascimento

Primeiras palavras... da liberdade à subjetividade: o encontro com o poder

Para um modo de pensar que tem a singularidade, o indivíduo, o particular por meta, pensar o social é sempre uma tensão. E assim aparece o pensamento de Michel Foucault como um embate para pensar o mundo público, mas fornecendo valiosas ferramentas para que possamos interrogar nossa atualidade. Há neste contexto, um problema para Foucault: a função política do intelectual, sobretudo aquele intelectual que, como o intelectual orgânico de Gramsci, tem uma função quase salvacionista no mundo público. Foucault é desconfiado em relação a isso. O intelectual não pode ter como função uma contribuição teórica universalizante, tampouco ele pode salvar o mundo dos outros.

O intelectual deveria ter antes um modo crítico de estar no mundo, criticando as relações entre o poder e a verdade, assim como criticando sua própria maneira de se relacionar com a verdade. Parece que a função do intelectual seria basicamente uma função de desmistificação da subjetividade, na medida em que ele mostra que ela é contingente, produto de um conjunto de estratégias sociais que precisam ser reinventadas por todos aqueles que desejam ser diferentes. E aí acaba a função do intelectual. Ele não pode dizer aos outros o que devem fazer. E nem deixar pistas. Talvez o intelectual seja aquele que mostre a possibilidade de fazer, ao invés de dizer “façam!”.

Neste sentido, Foucault aparece como um pretexto, como um motivo, ao mesmo tempo que um conjunto de ferramentas conceituais – embora não teóricas no sentido tradicional – para pensar nossa presença no mundo, nossa relação com a instância social e política. Em sua recusa de um mundo normatizado de modo opressivo, Foucault vai rever algumas categorias importantes na tentativa de ver de que modo essa normatização social não apenas é repressiva, mas também constitutiva, como é que o sistema normativo constitui sujeitos.

O problema da subjetividade surge aqui de modo decisivo, junto com outros elementos que articulam uma atividade de estabelecimento de limites, de modo a colocar em dúvida o grande postulado interpretativo segundo o qual o reino discursivo não teria fronteiras delimitáveis, de modo que práticas discursivas teriam seu espaço ilimitado, pois a doação de sentido que um sujeito opera seria infinita. Foucault acredita que as práticas discursivas têm limites nas suas fronteiras, suas regras de formação e suas condições de existência – o que nos remete novamente para o âmbito social. Deste modo, um sujeito soberano seria uma ficção, que deve ser analisada, e não apenas identificada e descartada, já que somos subjetivados como sujeitos que se auto-identificam como doadores de sentido. Neste contexto, Foucault propõe que uma filosofia, uma prática de pensamento seja uma ontologia crítica de nós mesmos, uma tentativa de nos enxergar-nos a nós mesmos como produtos com um conjunto de procedimentos historicamente constituídos e constitutivos de modo contingentes, mas que precisam ser identificados para que possamos nos colocar na tarefa da mudança. Fazer a ontologia histórica de nós mesmos significa dizer que precisamos saber como chegamos a ser o que somos para poder tornarmo-nos outras coisas.

Esta ontologia histórica de nós mesmos é uma aposta na liberdade dos indivíduos, mas uma liberdade que é re-significada no contexto desta atividade. A liberdade deve ser re-pensada, pois é uma palavra tão falada que às vezes nos soa como um sonho sem realidade efetiva, uma palavra banal, que não nos diz nada de muito significativo. Pensar numa ontologia histórica de nós mesmos requer que repensemos nossa condição como indivíduos que podem efetivar práticas de liberdade que possam acontecer e tentar libertar a própria liberdade do cansaço que os mal-entendidos em torno dela tenham causado.

Para tentar libertar a liberdade, vamos procurar outros caminhos para pensá-la, ao invés do já enfadonho “fazer o que tivermos vontade, o que quisermos, dentro dos limites que se nos impõem”. Pensamos que seja possível pensá-la de outros modos, pensá-la diferentemente. Que tal aceitarmos (ou pelo menos pensarmos sobre) a sugestão de Jorge Larrosa e pensar a liberdade em torno de uma “inauguração do futuro” (Larrosa, 2000, p. 329)?

Relendo Deleuze em um agenciamento de Foucault, Larrosa nos convida a diferenciar o presente – aquilo que somos e que deixaremos de ser em função de um devir, de um movimento em direção ao que ainda não somos – do atual – justamente o que nos tornamos, o nosso tornar-se outros. O presente seria o instante em que estamos, mas que nos deixa o passado como marca. O atual é o momento em que estamos que nos abre o futuro (Conf. Larrosa, ibid.).

Colocar a liberdade em função de uma inauguração do futuro implica também perceber os saberes que temos, as relações que mantemos com os outros e conosco mesmos, o que implica em conhecer o nosso presente. Estes elementos, de algum modo descrevem o que somos. Somos sempre os mesmos? Parece que não. E além de não sermos sempre os mesmos, parece que isto que somos é “arbitrário, específico e contingente” (Larrosa, 2000, p. 330); isto significa que somos filhos de um processo histórico-cultural e que podemos ser diferentes, podemos mudar, não somos obrigados a ser sempre os mesmos. E aqui a porta se abre para a liberdade como inauguração do futuro. A liberdade, como a estamos pensando, alcança a radicalidade: permite inaugurar um futuro diferente, inclusive para o que somos... A liberdade, portanto, não é apenas um fazer coisas, mas ser de outros modos.

A liberdade não seria, então, uma coisa, uma propriedade, uma essência que as pessoas tenham. A liberdade seria antes uma postura que está ao lado “do acontecimento, da experimentação, da transgressão, da ruptura, da criação” (Larrosa, 2000, p. 332). Deste modo, a liberdade não estaria ligada a uma idéia prévia de liberdade; pelo contrário, a liberdade está próxima ao imprevisível, ao que apenas se pode inventar, à pura possibilidade de fazer-se, de inventar um outro futuro ainda não previsto, um futuro que nem nossos saberes, nem nossas relações com os outros e nem nossas relações conosco mesmos previamente determina. Por isso, a liberdade aparece como uma experiência com a novidade, como uma abertura para o novo e o desconhecido. Desligada da idéia de uma propriedade inerente às pessoas, a liberdade apareceria como uma experiência de transformação, de modificação do que somos, uma invenção de novas possibilidades de viver.

Entretanto, não podemos nos modificar de qualquer modo, não podemos inventar qualquer possibilidade de viver. Por exemplo, não podemos nos modificar de sermos vivos e ter um corpo que não sinta dor – e ainda seguir consciente e agindo normalmente; não podemos inventar uma possibilidade de viver que não seja limitada pela morte... Estes fatos nos indicam que mesmo a liberdade tem limites. Que limites? Estes limites também não são dados previamente, assim como a própria liberdade também não é. Somente saberemos os limites de nossa liberdade na medida em que nos lançarmos na experiência de ser livres, de efetuar práticas de liberdade.

Esta possibilidade segue indeterminada. Ela não é uma atividade “fundada em um sujeito soberano que sabe o que quer e projeta sua realização no futuro” (Larrosa, 2000, p. 334). Ela é antes um programa aberto, vazio, que nos aponta para o fato de que não somos e não precisamos ser sempre os mesmos. Essa contínua mudança pode ser uma tentativa de escape a uma sociedade de controle, na medida em que ela nos captura, nos prende, na medida em que nos faz previsíveis. O que muda constantemente é justamente o que não se deixa prever. É muito mais difícil capturar o imprevisível...

No contexto do imprevisível que não se deixa analisar, pensemos então o previsível, o analisável, e aí Foucault nos mostra uma possibilidade nova, uma possibilidade de nos articularmos com uma atualidade, desde uma perspectiva histórica, retrocedente, e isso seria a genealogia: varrer a história guiados por um problema recente. Nosso problema é “o que somos”, e em função disto buscamos elementos na história que nos mostre a contingência do que somos, buscando ser de outros modos.

Vejamos então de que modo, colocar em questão o poder, tal como Foucault o fez, a subjetividade e a ética, pode fazer com que repensemos de outros modos a nossa relação com o que somos, e em função disto, como repensar a nossa relação com a diferença.

 

Repensando o poder e a subjetividade...

É já bastante conhecida a genealogia do poder foucaultiana, que recusa o poder como superestrutural, como repressivo e como propriedade ou simplesmente força. Uma coisa que nos parece ainda bastante interessante é partir de uma distinção que Foucault faz entre Relações de Poder e Estados de Dominação, para pensar como essa genealogia poderia ser instrumentalizada em uma ontologia histórica de nós mesmos.

Curiosamente, no final de sua vida, Foucault retoma, com mais intensidade a questão da subjetividade – apesar de que ele esteve a maior parte de seu trabalho criticando um sujeito soberano e, em uma crítica mordaz ao humanismo, anunciando a morte do homem. Na década de 80, ele chega a afirmar que se encontra com a questão do poder em função do problema da subjetividade (conf. Foucault, 1995, pp. 231-2), de forma que ele localiza o sujeito como o elemento mais importante de seu trabalho.

O sujeito é efeito de um conjunto de práticas discursivas e não discursivas que se dão no seio social. Ele é, desde sua produção, atravessado pelas relações de poder. Os sujeitos são filhos das relações de poder. As relações de poder são também mecanismos que convertem indivíduos em sujeitos, imprimindo neles uma identidade, uma propensão a certos tipos de condutas, uma racionalidade. Foucault se dá por conta de que a nossa individualidade nos foi imposta pelos mecanismos disseminadores das relações de poder. Como relação, o poder não é uma substância que é possuída pelo Estado ou por quem quer que seja. Esta relação consistiria em ações sobre ações de outros, uma ação sobre condutas, uma relação que se dá entre indivíduos que podem reagir contra estas ações. Desta forma, o poder aparece como uma rede de poderes e contra-poderes (a possibilidade de reagir na forma da resistência, dada na própria lógica das relações de poder). O poder está intimamente ligado com a produção de discursos de saber. O conhecimento, o saber, a verdade, diz Foucault, “não existe fora ou sem poder... A verdade é este mundo; ela é produzida nele graças às múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder” (Foucault, 1979, p. 12). A verdade e o poder se implicam mutuamente[1].

Deste modo, as relações de poder (visto não como uma coisa, mas um ato) se estabelecem entre indivíduos que se subjetivam, e que podem exercer sua liberdade no sentido de recusar um lugar na relação de poder. Disto implica o fato de que só exista poder onde exista a possibilidade de resistência, ou seja, só há poder onde há a liberdade. Neste sentido as relações de poder se instauram num campo de governamentabilidade, ou seja, no plano onde podemos “estruturar o eventual campo de ação dos outros” (Foucault, 1995, p. 244), mas também os outros estruturam o campo de nossas ações. Deste modo, não existe nenhum atrito entre liberdade e relações de poder, mas pelo contrário... a liberdade é uma conditio sine qua non para o exercício do poder. E essa liberdade está ligada com o fato, como dizíamos antes, de poder estruturar diversas condutas, ações e acontecimentos, e que de algum modo possam inaugurar um futuro diferente – mesmo que esse futuro inclua a decisão de não mais fazer parte dessa específica relação de poder (ainda que eu saia de uma para entrar em outra).

Se de um lado, as relações de poder são o que temos quando podemos fazer aparecer nossas liberdades, o que acontece quando não podemos mais explorar possibilidades novas de ação, recusar, resistir, é o que Foucault chama de Estados de Dominação. Estes estados se dão quando as relações “em vez de serem móveis e permitirem aos diferentes parceiros uma estratégia que os modifique, se encontram bloqueadas e cristalizadas” (Foucault, 1994, pp. 710-1). O que caracteriza os estados de dominação, então, é o fato de que nossas ações e discursos atuem no sentido de desmobilizar a liberdade dos outros que estiverem em relação conosco, isto é, uma tentativa de neutralizar a liberdade do outro, ou quem sabe, aniquilá-la.

Neste sentido, um escravo não está numa relação de poder. Pois no conjunto das relações sociais a vida não pode ser uma escolha entre outras. Posso escolher servir a um senhor ou morrer. Talvez neste sentido, a liberdade não esteja apenas no fato de que estejamos escolhendo entre alternativas já dadas (morrer ou servir), mas em também constituir as alternativas para que possamos escolher. A grande contribuição aqui, é pensar que não podemos viver fora das relações de poder, mas que isso não precisa implicar que precisemos viver em estados de dominação. Parece que os estados de dominação, segundo Foucault, surgiriam justamente pelas relações entre os indivíduos terem se empobrecido, cristalizado, e as alternativas parecerem bloqueadas. Parece que já não podemos mais criar novas formas de relações entre nós; daí, saltamos das relações de poder – que se abrem a novas formas de subjetivação – para os estados de dominação, onde já não podemos inventar mais nada, apenas podemos desempenhar papéis fixos e já determinados.

Parece que uma tarefa urgente, no contexto da revitalização de nossa própria subjetividade é, no mundo público, repensar as relações que temos com os outros, como relações de poder, neste contexto, fazer a genealogia histórica de nós mesmos, significa vivenciar de outras formas as relações com os outros em nossa atualidade.

O problema da subjetividade pode ser abordado de muitas formas e ter muitos sentidos. O sentido que parece mais presente nos trabalhos de Foucault é aquele que seguindo a provocação nietzscheana vai se pergunta como chegamos a ser aquilo que somos. Isto é, quando falamos em subjetividade, falamos naquilo que faz com que as pessoas sejam o que elas são e com as relações que as pessoas estabelecem com esse “são” que elas têm, com as relações que as pessoas estabelecem consigo mesmas. Dito de outra forma, o “eu”, a “pessoa” não são dado. São tão construídos quanto outros conceitos historicamente contingentes. O sujeito, é aqui uma relação. A relação com este eu historicamente construído. E esta relação é também historicamente construída, isto é, o sujeito é aqui a forma que as pessoas se relacionam com uma determinada imagem que é forjada de si mesmas em uma determinada cultura e em um determinado contexto histórico.

Esta imagem do sujeito, do eu, da pessoa, é uma forma de contraposição a uma outra imagem de sujeito bastante difundida na filosofia moderna. O sujeito fonte, o sujeito constituinte, o sujeito doador de sentido ou existência para as coisas, como por exemplo o eu que articula o cogito cartesiano, ou o sujeito das categorias kantianas. O sujeito aí aparece como portador e guardião de uma racionalidade fundante.

Esta imagem de sujeito que reinvidicada foucaultianamente não é puramente causa do sentido e da existência, ele mesma já é efeito de um jogo que articula discursos, práticas, poderes e saberes. O sujeito racional é, nesta imagem, um produto de um jogo de verdade que resulta em algumas apropriações de indivíduos em fins políticos. Esta racionalidade torna os indivíduos previsíveis e capturáveis. Sabe-se, de antemão, quais os campos de possibilidade de ação destes indivíduos.

Reinventar novas subjetividades é revisitar, de novos modos, as relações de poder, revitalizar as relações sociais, e procurar outros modos de ser no mundo, que não sejam fixos, inegociáveis. Um trabalho constante, um trabalho que nos coloca num movimento de estranhamento conosco mesmos ou, usando uma imagem bonita de uma pensadora norte-americana, na procura de tornar-se um forasteiro de dentro (Hutcheon, 1991, p. 98). O forasteiro é um sem lugar: atópico. Não há para ele lugar reservado, não há espaços já prontos, não há casas já desde sempre pré-definidas para que ele se hospede. O forasteiro é um ser por tornar-se. É alguém que nunca é, mas que apenas se torna... torna-se, em sua busca por um lugar, mas sem por isso querer que este lugar já lhe seja reservado. As imagens românticas que temos dos forasteiros, como seres imprevisíveis... estas imagens nos importam em nesta caracterização do indivíduo que busca uma des-subjetivação, novas subjetividades.

O forasteiro é aquele que olha com os olhos de quem desconhece... os olhos do forasteiro não são viciados pela obviedade. É aquele que olha o lugar pela primeira vez. É aquele para quem a terra é desconhecida, para quem os solos não oferecem segurança, justamente por serem desconhecidos. Um forasteiro parece ser alguém que é descaminhado, muito mais do que um indivíduo que sabe os caminhos que vai percorrer. É aquele que se instala num território que não é seu e se apropria dele, mas sempre com a única certeza de que ele é apenas alguém que é estranho a tudo no lugar... é estranho ao próprio lugar. É estranho ao próprio espaço... nada para o forasteiro é pressuposto, com exceção do fato de ele se saber forasteiro, de ele se saber um indivíduo que vaga, que não sabe muito bem onde vai estar amanhã, já que o desconhecimento da terra pode garantir, inclusive, a inospitalidade. Um forasteiro pode se instalar no espaço que o recebe e pode ir embora... nada é certo para o forasteiro... sobretudo o seu destino.

No entanto, este forasteiro de dentro não é um estrangeiro; ele não é alguém que sempre esteve fora do espaço que lhe é estranho. Os espaços pelos quais o forasteiro caminha já lhe foram e são, de alguma forma, familiares, pois esses espaços são os que o circundam. Estranhar-se com os espaços que nos são familiares, como diria Foucault, um "exercício filosófico: sua articulação foi a de saber em que medida o trabalho de pensar sua própria história pode liberar o pensamento daquilo que ele pensa silenciosamente, e permitir-lhe pensar diferentemente" (Foucault, 1984, p. 14). Este forasteiro não só tem o espaço desfamiliarizado, como a si mesmo... ele é um forasteiro também em relação a si mesmo... É aquele que, passando pela experiência de ser o que é, recusa esta experiência, passa a vê-la como um estranho, e coloca uma interrogação no curso de seu pensamento sobre ela... Ela é então, problematizada. Dessa forma, o forasteiro de dentro é um forasteiro de si, é aquele que não está "em casa" nem mesmo diante de seus hábitos mais arraigados... é aquele para quem nada está livre da pergunta, e aquele que ainda diante do risco, não hesita em recomeçar, em fazer outra vez, em fazer diferentemente, mas que nunca cessa de fazer.

Nesta imagem, aparece um amparo para a idéia novas subjetividades. Alguém que, pelo pensamento, pela revitalização das práticas, recusa-se a ser o que é. Um forasteiro de dentro é aquele que busca sempre ser diferente do que até o momento se apresenta. Ser outro. Ser diferente. Qual será o produto desta transformação? Que sujeitos outros virão após este processo? Não sabemos. Não há garantias de que o que virá será melhor do que o que temos hoje. Entretanto, buscar novas subjetividades, neste sentido, é correr riscos. E apostar em algo diferente disto que agora temos. E apostar sem saber o resultado antecipadamente. Apostar na novidade do que virá. Não se preocupar com a segurança, de antemão, pois tudo o que o status quo nos oferece, é de algum modo já “seguro”. Seguramente o sofrimento, seguramente a violência, seguramente o aviltamento de nossos desejos podem também ser conseqüências deste processo... mas é apenas um risco. Sendo o que somos hoje, esses acontecimentos negativos são fatos, e não apenas riscos.

 

Da subjetividade à ética: um espinhoso e direto caminho...

Desta discussão de tornarmos-nos outros, pensar outras subjetividades, pensar novas formas de estar no mundo, produtos desta genealogia de histórica de nós mesmos, nos encontramos com a questão ética. Se seguirmos, de algum modo, os motivos foucaultianos, vamos recolocar a questão da ética de um outro modo. Até porque a ética não foi propriamente uma preocupação central nos trabalhos de Foucault, sobretudo se pensamos a tradição ocidental de pensar a ética. Diferentemente de Habermas que recoloca a ética sobre bases intersubjetivas ou de Lévinas, que recoloca a ética numa perspectiva da alteridade, Foucault vai pensá-la, desde a perspectiva da subjetividade.

Os estudos de Foucault que encontraram a ética surgiram no contexto de seu último projeto de trabalho, A história da sexualidade. Este mesmo trabalho tem um movimento duplo: no primeiro volume, A vontade de saber, Foucault se pergunta pelo motivo pelo qual em discursos que pensam a verdade sobre o sujeito, como a psicanálise, colocam no centro de suas discussões o sexo. Este primeiro movimento acaba mostrando a limitação das justificativas das ligações do corpo com a verdade, e mesmo do sentido moral do sexo. Para buscar a superar esta limitação, Foucault vai buscar rastrear nos discursos morais greco-romanos as ligações entre sexo e verdade, só que neste percurso ele percebe que os sentidos destas ligações são absolutamente diferentes dos encontrados nos discursos verificados até A vontade de saber. Neste contexto surgem, então, os dois últimos volumes – finalizando A história da sexualidade em função da morte de Foucault, já que ele havia projetado, pelo menos, outros três volumes – O uso dos prazeres e O cuidado de si. E aí que o tema da ética aparece. E não no contexto de um estudo ético sobre a moral, mas no contexto de uma genealogia da ética, pensada no sentido de mostrar como os indivíduos se tornam sujeitos das ações morais.

Esta genealogia da ética, é um modo de mostrar que o sujeito da ação moral – e de algum modo todo o sujeito – é constituído de modo contingente na história. E nesta curiosa genealogia, Foucault propositalmente busca na Antiguidade exemplos onde a relação que os indivíduos estabeleciam consigo mesmos não era nem centrada numa obediência a um código prescrito pela religião, nem pela ciência e nem pelo direito.

Neste movimento Foucault acaba por se dar por conta que a ética, para que esse movimento se dê, será pensada não mais como um modo de relação com os outros através dos códigos ou condutas morais, mas como um modo privilegiado de relação consigo mesmo. A ética apareceria, neste sentido, como uma maneira pela qual os indivíduos se apoderavam de sua existência, como eles faziam a “experiência de si” para tornar suas vidas belas, ou o que Foucault vai chamar, seguindo as reflexões nietzscheanas, de estética da existência. Os outros, neste contexto, seriam apenas instrumentos para esta subjetivação – no sentido ético – mas seriam importantes e não violentáveis em função da sua presença política no mundo.

Uma ética como estética da existência, é uma ética sem universais, uma ética onde mais do que seguir regras, o indivíduo se preocupa em se tornar sujeito de sua conduta moral constituindo critérios de estilo que o individualizem, que o singularizem, que o faça diferente dos demais. Esse movimento de tornar a existência bela através de movimentos de singularização chama a atenção de Foucault não como uma mera alternativa para os modos normalizadores da ética, que tentam fazer com que os indivíduos se tornem sujeitos de suas ações morais seguindo a modelos pré-estabelecidos, mas como uma mostra de que é possível se subjetivar de modos diferenciados.

Esta ética Antiga é para Foucault, então, uma maneira de oferecer uma visibilidade diferente e não o caminho que de agora em diante teremos que seguir. Não é o caso que tenhamos que nos subjetivar como os gregos ou romanos – em suas práticas de estéticas da existência – faziam, mas para mostrar criticamente que é possível criar outros modos de ser, e que esta é uma questão nossa, uma questão de nosso presente, e que se torna urgente neste movimento de não deixar que as relações que temos conosco e com os outros se empobreçam gerando estados de dominação.

Esta tarefa de inventar novas relações conosco mesmos, de estetizar nossa existência não é simples, fácil e nem isenta de perigos. É um ato de colocar-se em questão, de inquietar nossas certezas, nossas seguranças, nossa estabilidade. É perder a crença de que o mundo, a natureza humana, ou qualquer outra coisa seja bom em si. Não podemos estetizar uma existência boa, assim como não podemos modificar um mundo que já tenha os valores dados desde sempre. Esta tarefa nos coloca em um doloroso caminho, na medida em que nossas seguranças se vão. Em que viveremos na corda-bamba de nossas construções, de nossos riscos.

A ética seria repensada agora não como uma preocupação com os outros, nem com uma preocupação com uma imagem de si mesmo que deva seguir um ideal de sujeito dado pelas estruturas sociais. A ética seria agora pensada em função de um si mesmo singular. Um si mesmo ainda não dado, um si mesmo totalmente em construção. A ética seria uma atitude crítica do indivíduo em si relação a si mesmo, na recusa de continuar sendo o mesmo ou de seguir as subjetividades impostas (subjetividades estas que sobretudo, são violentas com os outros).

Certamente este movimento causa uma certa dificuldade de pensar a instância social como espaço importante, já que o elemento central da reflexão é o próprio indivíduo, mas não precisamos sacralizar o social em detrimento dos indivíduos, podemos nos colocar o desafio de repensar a instância social, o público sem reduzir o indivíduo ao simples status de parte ou ainda como um componente de um todo que é sempre mais importante. Isso deve ser visto como um problema constantemente pensado, que não se resolve nesse olhar para si mesmo que tende a ser modificador; este movimento deve ser constante para que esta atividade de singularização não se transforme num autismo social. Talvez enfatizar o caráter crítico desta atividade seja um modo de recusar esta condição de indiferença com o social em função da singularidade.

 

A possibilidade da filosofia como crítica... ao modo de palavras finais, mas não últimas

Pensar em uma possibilidade de crítica que evite uma indiferença social, na medida em que nos coloca em questão constantemente pode ser uma atividade da filosofia. Foucault em seu curioso dialogo com Kant, se dá por conta que a crítica é um êthos filosófico, um modo de ser da filosofia.

É possível encontrar na história da filosofia posturas críticas e posturas dogmáticas, posturas que querem apenas justificar fatos e posturas que querem problematizar o mundo. Obviamente, não é qualquer tipo de filosofia que servirá para uma atividade de observação crítica que evite essa indiferença social, de crítica ao status quo, de ferramenta política para transformar, seja o mundo, seja o indivíduo que filosofa. Uma filosofia interessante para este processo é aquela que oferece ferramentas autocríticas que nos obrigam a não só colocar em questão o status quo, mas também a nós mesmos. Mas que forma de filosofia seria esta?

Dentre algumas formas possíveis, uma interessante atividade filosófica, para esta ponte entre singularidade e social seria uma filosofia que aparecesse como uma experiência crítica do pensamento. Uma filosofia como experiência que se oponha a uma filosofia como forma de contemplação ou simples teorização. Uma filosofia que aparece como prática; uma prática discursiva, uma prática do pensar. Uma experiência é um movimento único, singular, um movimento que ninguém pode fazer por nós. Um movimento que nos individualiza. É um movimento intransferível, irrepetível. É um movimento “do qual se sai transformado” (Foucault, 1994, p. 41). O objetivo não é primeiramente transformar o mundo, mas transformar a si mesmo em algo diferente. A experiência coloca o experimentador no centro da experiência. E a experiência aqui é a experiência do pensar.

O pensar aparece como uma forma radical de interrogar o mundo e a si mesmo. Não é um pensar que tenta legitimar o que já se sabe, mas um pensar que coloca tudo sob suspeita. O pensar é aqui uma atividade de imersão no mundo, que desconfia daquilo que aparece como verdadeiro. O pensar aqui aparece como uma forma de modificar a nossa relação com a verdade. O pensamento é um devaneio, uma ficção, um mecanismo que nos possibilita ser ao mesmo tempo sujeito e objeto de uma atividade. Devaneio, porque não conhece fronteiras, não conhece impossíveis; ficção, pelo descompromisso com as fronteiras entre real e virtual. Pensa mundos diferentes, indivíduos diferentes. Na medida em que nos colocamos como objeto desses mecanismos, ao mesmo tempo em que somos os operadores e detentores desse mecanismo que é o pensar, nos colocamos sob questão. Esta experiência crítica do pensamento é uma forma de antropologia filosófica; recoloca sempre a pergunta quem somos nós?

Mas o que seria a crítica neste contexto? Crítica é uma dessas palavras tão ditas que tem perdido sua força sensível. Tudo hoje é crítica. A crítica hoje tem tantos sentidos que já não sabemos ao certo o que ela é. Nesse emaranhado de sentidos da palavra crítica tentemos escolher um sentido que estrategicamente seja interessante para esta noção de filosofia como experiência crítica do pensar. Um pensar que ao invés de encaminhar, desencaminhe. Um pensar que pressuponha que nem tudo está bem como está.

A crítica, neste contexto, seria então um movimento de desconfiança e insubmissão. A crítica apareceria como um tipo de posicionamento diante daquilo que aparece como óbvio, como estabelecido, que não o respeita como sagrado. A crítica seria um movimento de desfamiliarização de coisas que se assentam no pensar e no agir, ou nas palavras de Foucault:

Não creio que se possa opor crítica e transformação, a crítica “ideal” e a transformação “real”... Uma crítica não consiste em dizer que as coisas não estão bem como elas são. Consiste em ver sobre quais tipos de evidências, de familiaridades de modos de pensar adquiridos e não refletidos repousam as práticas que se aceitam (...) A crítica consiste em liberar o pensamento e a ensaiar sua mudança: mostrar que as coisas não são assim tão evidentes quanto se crê (...) fazer a crítica é tornar difíceis os gestos fáceis demais. (Foucault, 1994, p. 180)

A crítica, enquanto formadora de um pensamento subversivo, estaria ligada a uma recusa a ser simplesmente governado ou regido por outros acriticamente. Ao realizar uma genealogia da crítica na Modernidade, Foucault localiza seu surgimento em uma recusa de ser governado (Foucault, 1990, p. 38). A recusa pelo governo eclesiástico, ou fundado nas ‘Escrituras’, recusa a prescrições universais impostos por monarcas, magistrados, educadores e família. A recusa da verdade da autoridade sem que haja boas razões para aceitar esta autoridade. (cf. Foucault, 1990, pp. 38-9). A crítica seria o “movimento pelo qual o sujeito se dá o direito de interrogar a verdade sobre seus efeitos de poder e o poder sobre seus discursos de verdade; a crítica seria a arte da inservidão voluntária, algo de indocilidade refletida” (idem). A crítica seria um dispositivo do pensamento para nos livrar-nos da servidão imposta por práticas, pensamentos ou qualquer outra instituição.

Parece que se afirmarmos esta experiência do pensamento como crítica, estaremos em busca de transformar aquilo que nos aparece como óbvio, como instituído, como “normal”, em algo estranho, em algo que pode ser interrogado, questionado. Nada é natural para a crítica. Tudo pode e deve ser interrogado. Neste sentido, o que a crítica procura é antes um desconfiar, um colocar sob suspeita o que já se sabe. A crítica apareceria como um exercício de estranhamento.

A filosofia, neste contexto, já não seria mais uma forma de saber, uma ciência ou um tipo de forma de conhecer. Ela seria o “trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento”, seria uma forma de “tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe” (Foucault, 1984, p. 13). Este movimento de desconfiança pode ser chamado de problematização. Problematizar algo não é simplesmente fazer a representação de um objeto pré-existente, nem sobre este fazer um discurso, o que equivaleria, de alguma forma, a tentar legitimar o que já se sabe. Problematizar seria constituir o conjunto de práticas discursivas e não discursivas que “colocam algo no jogo do verdadeiro e do falso, constituindo como objeto do pensamento (seja sob a forma de reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política, etc.)” (Foucault, 1994, p. 670).

A filosofia estaria interessada então na verdade, mas não como se ela fosse algo em si, mas na forma como algumas coisas funcionam como verdadeiras e como outras coisas funcionam como falsas e que efeitos de poder teriam essas coisas consideradas como verdadeiras. Este tipo de procedimento vê que isso que pensamos ser evidente e sempre verdadeiro foi construído na história. E se algo é construído, o é de forma contingente. E se é contingente, pode ser de outra forma. Este tipo de procedimento nos mostra que se as “coisas foram feitas, elas podem – sob a condição de que se saiba como elas foram feitas – ser desfeitas” (Foucault, 1994, p. 449). A verdade não vem das coisas, mas a verdade – que é também feita – faz as coisas. Criticar a verdade é de alguma criticar a forma como as coisas funcionam. É buscar outras formas de ser e de pensar.

Essa desconfiança vai até o ponto de nos perguntar se nossa singularidade pode/deve violentar os outros – e tanto faz se os encaremos como outros sujeitos ou como coisas. Essa desconfiança não é garantia de um mundo pacífico, mas também não coloca a violência como ponto de partida para nenhum tipo de procedimento no mundo social.

Talvez esta postura crítica seja aberta à diferença justamente por não pensá-la, por não reificá-la, por não transformá-la em objeto. Talvez esta postura seja uma abertura a diferença por uma tentativa de acolhê-la na própria subjetividade, na medida em que nos permitimos (e perseguimos) a possibilidade de sermos outros, sermos diferentes. Essa não é uma postura que apenas pensa em mobilizar a diferença em nós mesmos, mas em liberar a diferença para que ela possa ser, e uma vez que ela possa ser, possamos também abrigá-la em nossa própria subjetividade. Talvez seja isso o que Foucault chama de uma vida não fascista.

Foucault chama de fascismo não apenas as posturas históricas de Hitler e Mussolini, mas também as nossas condutas corriqueiras de nos colocarmos ao lado de um poder que oprime, explora, controla, domina – a nós mesmos e aos outros. Uma vida não fascista seria vida onde buscássemos, mais do que ter o poder como algo de desejável, ter o cuidado de não sermos seduzidos por ele; ter a consciência de que somos construídos, produtos, do poder. E que, em função disto, não precisamos e não devemos violentar, dominar, oprimir, nem a nós mesmos e nem os outros. Caminhos pra uma vida não fascista? Temos que inventar... caminhos múltiplos, plurais, diferentes.

 

 

Bibliografia

 

Foucault, Michel.  “Verdade e Poder”. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

Foucault, Michel.  História da Sexualidade 2: O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

Foucault, Michel . « Qu'est-ce que la critique? Critique et Aufklärung ». Bulletin de la Société française de philosophie, Vol. 82, nº 2, p. 35 - 63, avr/juin, 1990.

Foucault, Michel . Dits et écrits. Paris: Gallimard, Vol. IV, 1994.

Foucault, Michel. “O sujeito e o poder” In: Drayfus, H; Rabinow, P. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

Hutcheon, Linda.  A poética do pós-modernismo. História, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

Larrosa, Jorge. “A libertação da liberdade”. In: Portocarrero, Vera; Castelo Branco, Guilherme (Orgs.). Retratos de Foucault. Rio de Janeiro: Nau, 2000.


 

 


 

1. Corporeidades e espaço urbano em Foucault

monica daniels

 

O presente artigo busca  focalizar alguns aspectos da análise foucaultiana relativos ao desenvolvimento dos mecanismos de poder disciplinar e de regulamentação, tendo em vista abordar as transformações exercidas por esses dispositivos no modo de percepção do corpo  no espaço,  com o desenvolvimento da vida urbana moderna, destacando-se, nesse processo, a construção de  formas de alteridade social.

 

Corpo, espaço e poder moderno

 

O desenvolvimento do capitalismo moderno, que marca o processo de predominância  da sociedade urbana sobre a rural, encontra como um importante elemento propulsor o desenvolvimento de uma  moral, uma certa maneira de viver, uma certa maneira de ser[2]. A genealogia foucaultiana do poder moderno remete ao processo de urbanização. À medida que esse poder se espacializa e se apropria dos corpos em sua plenitude, as mudanças na experiência de vida daí advindas dizem respeito às formas de articulação entre corpo e espaço urbano. Trata-se, portanto, de categorias fundamentais para se pensar a fabricação de identidades e tipos de alteridade que vão se desenvolvendo com esse urbanismo, configurando novas posições e contraposições no tecido social. Destaca-se, assim, os novos modos de ver que são revelados através de relações entre corpo e espaço redesenhadas pelo poder. Nesse sentido, Foucault possibilita pensar a cidade como instância de produção de sensibilidades, impressões, disposições  estéticas referentes às transformações nas formas dos indivíduos representarem a si mesmos e aos outros.

O poder que caracterizava a Idade Média – verticalizado, apoiado numa relação de forças dissimétricas, centralizadas no corpo do soberano - tornou-se ineficaz e incompatível com as características de uma sociedade que se transformava rapidamente. Em função do crescimento demográfico e da industrialização, emergiam dois imperativos fundamentais para as relações de poder:  dar conta do conjunto da sociedade que se formava e penetrá-la em seus aspectos mais ínfimos. 

A articulação entre corpo e espaço tornava-se, portanto, uma questão central, tendo em vista  as necessidades de ordenar espacialmente e tornar produtiva a massa disforme e confusa que se formava com a explosão demográfica do século XVIII.  Era necessário fixar os corpos no espaço social,  canalizando racionalmente suas energias para os objetivos do sistema,  através da inserção de sua força  no aparelho de produção por meio de ajustes individuais e populacionais. Trata-se, assim, de uma transformação no modo de conceber o corpo, passando-se a valorizar sua utilidade crescente, o que implica, por sua vez, um  olhar sobre o mesmo muito mais próximo, uma vigilância e controle intenso e permanente, visando orientar seus movimentos no espaço em que se insere. 

 Os mecanismos do poder difundem-se, então,   pelo tecido social, num processo de  esquadrinhamento do espaço por micropoderes, numa sociedade que se subtraía de um eixo central de emanação de forças, passando a se configurar  sob um modelo geométrico quadrangular. Dispersando-se  pela sociedade, o poder passa a circular por canais cada vez mais tênues, adquirindo uma tessitura microfísica, tornando-se anônimo e onipresente. Nesse processo,  as relações entre corpo e espaço tornam-se  intimamente controladas, direcionadas, administradas à medida em que essas forças dispersam-se na sociedade, penetrando em seus níveis mais elementares, em suas microesferas, nos seus elementos individuais. Os corpos são,  no seu conjunto e na sua individualidade, orientados  no espaço, envolvidos como organismos e como redes, como indivíduos e como massa, para que o poder  mesmo tendo uma multiplicidade de homens a gerir seja tão eficaz quanto se exercesse sobre um só[3].

Portanto, a energia do indivíduo passa a se constituir,  substância de valor para a sociedade capitalista. O corpo, até então, não era pensado como elemento criador  e poderia ser destruído. O poder era, antes de tudo, direito de apropriação das coisas, da vida, exercendo-se e ostentando-se como poder de morte. A modernidade marca a passagem para um poder cujas forças se voltam para as forças dos corpo, para sua vitalidade - um poder que se alimenta da vida.  Ao invés de  buscar a sujeição dos indivíduos atuando negativamente, reprimindo-os, supliciando-os, eliminando-os, orienta-se por uma  ação positiva, de modo a incitá-los, ordená-los, fabricá-los, utilizando-se menos  da violência do que de saberes e controle de suas forças, que Foucault chama de tecnologia política do corpo.

Nesse processo de sutilização do poder, a constituição do homem como objeto do saber tem  papel crucial. O poder que, para Foucault,  tem como substância fundamental regimes de verdades [4] , articula-se na modernidade a um saber científico sobre o indivíduo e seu  corpo   que assume caráter de neutralidade e que constitui um importante elemento propulsor para o desenvolvimento da sociedade moderna. Onde se destacam os saberes relativos aos processos vitais da espécie humana. A edificação  do capitalismo contou  com esse fator capital que foi a entrada da vida na história – isto é, de fenômenos próprios à vida da espécie humana na ordem do saber poder – no campo das técnica políticas. [5]  Através de saberes  e mecanismos de controle, o poder toma conta de seu corpo num primeiro momento e, mais adiante, da plenitude de seus processos biológicos e vitais produzindo assim formas de assujeitamento .

A medicina é componente estrutural desta disposição de poder atrelado a regimes de saber, produzindo uma concepção de vida que dá suporte aos dispositivos do poder moderno.[6]  Ela é um saber- poder que incide ao mesmo tempo sobre o corpo do indivíduo e da população.  Seus aspectos físicos e biológicos tornam-se elementos cruciais e estratégicos para uma gestão política e econômica que, apoiada na suposição da neutralidade de um discurso reconhecido como científico,  administra e normaliza a existência dos indivíduos  Foi no biológico no  somático, no indivíduo, que antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade bio-política, a medicina é uma estratégia bio-política [7] Portanto, este poder-saber  desloca a materialidade dos processos vitais para o âmbito da cultura humana, modificando-a, controlando-a, administrando-a . O biológico reflete-se no político[8].

O bio-poder, apoiado na idéia  de vida, reorganiza  a relação entre corpo e espaço  regulamentando as pessoas nas cidades emergentes, em sua multiplicidade e individualidade. Foucault destaca dois mecanismos de controle desenvolvidos pelo poder-saber  a partir do século XVIII, em duas formas principais, que não são antitéticas e constituem, ao contrário, dois pólos de desenvolvimento interligados por todo um feixe intermediário de relações [9]. Um dos pólos, desenvolvido num primeiro momento, volta-se para o indivíduo como organismo visando seu treinamento, seu adestramento, modelando-lhe gestos, formas, ritmos, extraindo-lhe o tempo, tornando-o força útil ao capital, expressando-se, por exemplo, na edificação da instituições urbanas. O segundo, que se formou um pouco mais tarde, por volta da metade do século XVIII, centrou-se no corpo população, no corpo enquanto teia de corpos. Organiza-se, então, uma gestão política e econômica em torno de traços biológicos da população, visando equilíbrio, regulamentação e administração intensiva da vida, melhoria de suas performances, aperfeiçoamento da raça.  Criam-se, assim, idéias de espaço-populações.

Através desses dois mecanismos articulados a sociedade, suas células, seus níveis mais elementares são perpassados por múltiplos micropoderes que fabricam indivíduo, corpo, vida, de modo global e individualizado.  Trata-se da instalação durante a época clássica desta grande tecnologia de duas faces – anatômica e biológica, individualizante, voltada para os desempenhos do corpo e encarnando os processos da vida. [10]

Por se tratarem de mecanismos que se inscrevem em níveis diferentes, tendem a não se excluir, mas a se imbricarem. Pode-se mesmo dizer que, na maioria dos casos, os mecanismos disciplinares de poder e os mecanismos regulamentadores de poder, os mecanismos  disciplinadores do corpo e os mecanismos regulamentadores da população, são articulados um com o outro.[11] Em Em Defesa da Sociedade, Foucault exemplifica essas interligações, destacando  duas instâncias - que mantêm certa articulação entre si - que entrelaçam esses dispositivos : a cidade e a sexualidade.

            Através de uma série de controles infinitesimais - orientados em torno da divisão entre normal e anormal que estrutura o pensamento médico moderno -  a disciplina e o biopoder esquadrinham o corpo  do indivíduo e da população em múltiplos sentidos,  restringindo as forças do sistema jurídico da lei, configurando uma tessitura social composta principalmente pelo poder normativo. A norma circula entre disciplina e biopoder,  constituindo-se a matéria- prima para a fabricação do sujeito moderno. É a instância a partir da qual se fabrica discursos sobre o homem apoiados na relação entre normalidade/anormalidade.

Isso significa que vão se configurando, diversificando e multiplicando uma série de prescrições e constrangimentos a respeito de diversas questões da existência humana em função das quais os comportamentos são direcionados,  modelados, distinguidos, classificados, fiscalizados por medidas comparativas que têm a norma como referência;  os indivíduos são convocados a se por em vigilância contínua em função dessas diretrizes,  o que viabiliza, assim, a constituição de  uma unicidade social. 

Temos, pois, nas sociedades modernas, a partir do  século XIX até os nossos dias, de um lado uma legislação, um discurso, uma organização do direito público articulados em torno do princípio da soberania do corpo social e da delegação, por cada qual, de sua soberania ao Estado; e depois temos, ao mesmo tempo, uma trama cerrada de coerções disciplinares que garante de fato, a coesão desse mesmo corpo social[12].

Esta normatividade apresenta-se cada vez mais determinante à medida que adentra a existência do indivíduo, organizando a percepção de si mesmo e do outro, do corpo e do espaço. Trata-se, portanto, de um componente essencial na concepção e edificação das cidades modernas, que, em sua  paisagem concreta e através de derivas contínuas entre corpo e espaço,  reenvia a referenciais de normalidade e anormalidade, inclusão e exclusão.

 

 Corpo e vivência urbana

 

Foucault destaca a cidade  como uma instância de articulação dos mecanismos de poder sobre corpos e populações [13]. O poder, construindo  a estrutura e paisagem urbana, edificando suas instituições desenvolve e vai se desenvolvendo através de todo um modo de vida e de um conjunto de discursos sobre o homem, por meio de escolas, quartéis, ateliês, hospitais, penitenciárias, ou ainda, através dos projetos populacionais: cálculos de natalidade, mortalidade, longevidade, qualidade de vida, conjugando no espaço citadino as tecnologias disciplinares e  regulamentadoras.

Para Foucault, o modo de inscrição do poder no espaço é fundamental :  seria preciso fazer uma história dos espaços que seria ao mesmo tempo uma “história dos poderes” – que estudasse desde as grandes estratégias da geopolítica até as pequenas táticas do habitat, da arquitetura institucional, da sala de aula ou da organização hospitalar, passando pelas implantações ecônomico-políticas   (...)  A fixação espacial é uma forma econômica-política que deve ser detalhadamente estudada [14]

A cidade pode ser compreendida como uma categoria heurística  para  se focalizar a configuração espacial  do poder e seu apropriamento dos corpos, transformando a existência dos indivíduos. À medida que constrói o tecido urbano através de sua circulação capilar, o poder moderno confere uma mudança na vida cotidiana, na percepção  de pessoas e lugares, produzindo uma nova sensibilidade que envolve a família, vizinhança, as esferas mais  ínfimas e elementares da sociedade.

A urbanização moderna engendra-se através de uma transformação espacial e corporal  relativa a transição de um poder centrado na punição para outro que se organiza em torno da vigilância. As cidades são recortadas e esquadrinhadas, por locais de confinamento que marcam sua fisionomia, onde as pessoas vivenciam  uma nova relação com o ambiente ao seu redor - um ambiente impregnado de controle, em que são expostas  a um olhar intenso e permanente, exercido por um poder que se revela no ocultamento. Ergue-se um cotidiano mapeado por dispositivos de controle,  que direcionam  ritmos e fluxos das pessoas, distribuindo-as espacialmente, apropriando-se de  seus corpos, modelando movimentos, gestos, formatando seu tempo pelo trabalho, construindo nesse intercâmbio entre corpo e espaço, os lugares e  indivíduos urbanos, componentes essenciais  para a sustentação do capitalismo moderno.

Nesse processo, destaca-se  a edificação de espaços de visibilidade,  marcando a passagem de uma arquitetura de espetáculo para uma arquitetura de vigilância[15].. (...) O problema da visibilidade total dos corpos, dos indivíduos, das coisas para um olhar centralizado havia sido um dos princípios diretores mais constantes[16]. Os lugares são replanejados em função do corpo, numa busca de visibilidade plena .

 A vigilância  pressupõe, portanto, a construção do olhar e do objeto a ser visto. O dispositivos modernos produzem novos esquemas perceptivos através da reorganização espacial. Incorpora-se e fabrica-se  a ordem social no olhar, que, conjugando corpo e espaço, engendra  formas de distinção e contraposição social. Assim, a normatividade crescente da vida moderna estrutura a cidade, edifica-lhe a paisagem e incide na vivência dos indivíduos, desenvolvendo impressões, sensibilidades e novos valores.

As instituições urbanas  solicitam o olhar a todo momento na vida cotidiana, criando-se  uma maneira particular de conhecimento de si e do outro e de apreensão da cidade. A arquitetura  passou a se funcionalizar e a se especializar em função dos imperativos e interesses políticos e econômicos,[17]  demarcando corpos, identificando sua população. Poder moderno fabrica  individualidades, e portanto, corpos específicos, através da constituição de lugares que determinam suas identidades - encerradas no hospício,  hospital, prisão,  fábrica, escola, desenvolvendo uma racionalidade elaborada do que deve ser visto e como deve ser visto, que se orienta articulando estreitamente corpo e espaço.

Esse urbanismo edifica corpo e alma modernos, caracterizados por  uma sensibilidade estruturada  e fomentada pelo crescimento dos patamares de intolerância ao outro. A consciência de si e da diferenciação crescente da sociedade  passa pela transformação da representação corporal, juntamente a uma reeorganização do espaço físico.  Os rearranjos corporais e espaciais na cidade articulam-se, ainda, a novas formas de representação das hierarquias no espaço urbano, onde a fabricação da sexualidade pelo poder exerce  um papel essencial.

 

Sexualidades e urbanidade

 

Foucault nos mostra que  a sexualidade é instância capital deste poder que se apropria da vida,  integrando tecnologias disciplinares e regulamentadoras, intersectando corpo do indivíduo e população, organismo e espécie[18].  Desempenhando um papel estratégico no século XIX, é o âmbito que se apresenta como elemento fundamental  da modernidade para se estabelecer distinções de classe e construir tipos de alteridade social.

Para Foucault,  uma das formas primordiais da consciência de classe é a afirmação do corpo; pelo menos foi esse o caso da burguesia no decorrer do século XVIII; ela converteu o sangue azul dos nobres em um organismo são e uma sexualidade sadia (...)[19] opondo  ao sangue valoroso dos nobres, seu próprio corpo e sua sexualidade preciosa.[20]O desenvolvimento da modernidade marca,  a passagem de uma civilização simbólica do sangue para uma civilização analítica da sexualidade. A aristocracia nobiliárquica também afirmara a especificidade de seu próprio corpo. Mas era na forma do sangue, isto é da antiguidade das ascendências e do valor das alianças; a burguesia para assumir um corpo olhou par o lado de sua descendência e da saúde de seu organismo. Uma forma de transposição: o sangue da burguesia foi seu próprio sexo[21].

A burguesia busca assumir uma sexualidade, um corpo específico, condizente com sua posição social, “um corpo de classe”. Ela desenvolve um conjunto de cuidados com seu corpo e sua imagem corporal , preservando-se dos riscos, dos contatos, dos contágios, fabricando, assim, uma sexualidade, uma tecnologia do sexo.  Foucault destaca na história a origem burguesa da sexualidade. Esta apresenta-se como uma invenção histórica, uma ficção construída pela burguesia através da qual é possível unir as ciências da vida às práticas normativas do poder tornando-o eixo capital de suas micro-práticas. (...) é preciso voltar a formulações há muito tempo desacreditadas: deve-se dizer que existe uma sexualidade burguesa, que existem sexualidades de classes. Ou, antes, que a sexualidade é originária e historicamente burguesa e que induz, em seus deslocamentos sucessivos e em suas transposições, efeitos de classe específicos[22].

 Essa valorização burguesa do próprio sexo[23] compõe a dimensão política de seu corpo,  suas práticas e sensações corporais que adquirem um valor alto e diferencial.  Os mecanismos de distinção de classe aliam-se a construção de um novo olhar. A burguesia produz “sexualidades de classes” e olhares de classe sobre as mesmas, assumindo a imagem de uma conduta sexual loquaz em relação às outras.

Destaca-se, aqui, como corpo e cidade se conjugam na transformação desse olhar. O cuidado ostensivo com o corpo e comportamento sexual somados às preocupações trazidas pelas transformações urbanas  forçam o direcionamento da atenção burguesa à sexualidade do pobre, até então negligenciada . “ Para que o proletariado fosse dotado de um corpo e de uma sexualidade, para sua saúde, seu sexo e sua reprodução constituissem problema, foram necessários conflitos (especialmente com respeito ao espaço urbano: coabitação, proximidade, contaminação, epidemias, como a cólera de 1832 ou, ainda, a prostituição e as doenças venéreas) (...) [24]   

 A urbanização moderna reenvia a uma reconfiguração do olhar sobre o sexo e ao desenvolvimento de distinções e discriminações daí provenientes. O corpo do pobre passa, então,  a ser percebido e definido negativamente[25]. Considerando-se que as práticas sexuais inadequadas repercutem maleficamente à saúde e bem-estar dos indivíduos e  população, as políticas de salubridade colocam a necessidade de normalizar a  sexualidade das massas. A burguesia encontra na vida da cidade um foco de perigo para seu corpo, sua sexualidade, suas gerações. O desenvolvimento das cidades modernas, marcado pelo aumento populacional e pela constituição da classe operária, vai se identificando como o espaço de perigo caracterizando a entrada  de um maior fluxo na cidade de elementos perigosos. A administração da cidade, em função dos imperativos econômicos e políticos, exerce pressões sobre a conduta sexual que se  inscrevem tanto na arquitetura, organizando, por exemplo, a especificação dos cômodos da casa,  o interior dos prédios escolares, como no recorte da cidade, no remapeamento das zonas de prostituição, na divisão urbana por regiões.

Desenvolve-se  todo um conjunto de projetos médico e político de organizar uma gestão estatal dos casamentos, nascimentos e sobrevivências; o sexo e sua fecundidade devem ser administrados. [26]  A racionalidade médica  normatiza a sexualidade e  produz  formas de normalização das condutas. Daí uma série de múltiplos e diversificados controles visando uma sexualidade saudável, “normalizada” situando os indivíduos e suas práticas numa escala das classificações patológicas. A idéia de normalidade e anormalidade que, como mostra Foucault, estrutura o pensamento médico,  se inscreve, então, em toda a vida social das cidades. Os indivíduos são incitados a se vigiarem,  se classificarem e  se enquadrarem aos padrões médicos normativos em diversos aspectos de seus corpos, suas práticas, suas vidas. Através da pedagogia, da medicina e a economia, nasceu uma tecnologia do sexo que fazia do sexo não somente uma questão leiga mas negócio de Estado, ainda melhor uma questão em que todo o corpo social e quase cada um de seus indivíduos eram  convocados a se por em vigilância [27]

 

Riscos urbanos

 

  Foucault mostra que a história da medicina é em parte uma história da transformação do olhar,  uma transformação que não ficou restrita ao campo médico. A fabricação médica da vida desenvolve novas sensibilidades, penetra na vivência urbana,  na percepção de corpos e lugares. Mas, como mostra Foucault  em O Nascimento da Clínica, trata-se de uma concepção de vida problematizada, pela noção de morte, que se encarna nos corpos. Foi quando a morte se integrou epistemologicamente à experiência médica que a doença pode se desprender da contranatureza e tomar corpo no corpo vivo dos indivíduos.[28] O discurso médico lança um novo olhar sobre o corpo fabricando uma  relação entre vida e a morte, corpo e doença. A ordem da doença é apenas um decalque do mundo da vida: nos dois casos, reinam as mesmas estruturas, as mesmas formas de repartição, a mesma ordenação. A racionalidade da vida é idêntica à racionalidade daquilo que a ameaça. Elas não estão, uma com relação à outra, como a natureza está para a contra-natureza; mas se ajustam e se superpõem em uma ordem natural que lhes é comum. Reconhece-se a vida na doença, visto que é a lei da vida que, além disso, funda o conhecimento da doença.[29]

Através de Foucault, podemos perceber como o desenvolvimento de formas de alteridade  sociais, desenvolvidas pela modernidade podem ser compreendidas em parte pelas articulações estabelecidas entre corpo e  espaço em função da transformação do olhar. Um olhar que reestrutura a relação entre  visível e invisível, construindo a partir daí, uma  linguagem racional apoiada na divisão entre normal e anormal. Trata-se, assim, de um novo modo de ver, que trazendo à luz os males ocultos nas superfícies visíveis, produz aproximações e formas específicas de trânsito entre corpo e espaço, incidindo então, na forma de apreensão da cidade. É assim que, por exemplo, tendo em vista os fatores de doença, revela-se as interferências negativas de um âmbito sobre o outro. Os espaços urbanos são tratados no sentido de evitar focos de riscos aos corpos, estes, por sua vez, são higienizados para evitar a insalubridade do meio. Daí as expressões que enfatizam esses intercâmbios contínuos: medicalização da cidade, desinfecção da cidade, higienização  das ruas, das casas, dos costumes.

Em função desse modo integração da dimensão corporal ao espaço urbano, não é de  estranhar o papel fundamental que os médicos tiveram no processo de urbanização, destacados por Foucault entre os primeiros urbanistas do século XVIII.   Os médicos do séc. XVIII eram de certa forma especialistas do espaço (...).[30]  Eles foram, junto aos militares, os primeiros administradores do espaço coletivo, sendo que os médicos voltavam-se mais para o espaço das moradias e das cidades, onde destacaram o problema da habitação, das localização das coexistências, e deslocamentos.[31] 

Na história das cidades na civilização ocidental, a medicina social[32], como observa Foucault, antes de se voltar propriamente para os indivíduos, configura-se como uma medicina dos espaços uma  medicina  (...) do ar, água, decomposições, fermentos;   uma medicina das condições de vida e do meio de existência. (...)[33] O desenvolvimento dos hospitais modernos marca esse novo modo de ver corpo e espaço, onde, em sua estrutura espacial, o ambiente hospitalar deve ser adequado à promoção da saúde do doente.  A arquitetura hospitalar é um instrumento de cura de mesmo estatuto que um regime alimentar, uma sangria ou um gesto médico. O espaço hospitalar é medicalizado em sua função e em seus efeitos.[34] A reordenação urbana  e a construção de subjetividades moralmente civilizadas se atrelam a uma nova representação corporal e espacial, o funcionamento dos esgotos, a limpeza das ruas e habitações, a inculcação de novos hábitos aos comportamentos mais íntimos, disciplinamento dos contatos, desenvolvimento de etiquetas de contatos nas ruas.

Esse replanejamento dos espaços em função das ameaças à saúde, assume um caráter fundamental  nos projetos políticos, à medida em que o poder encontra como um de seus problemas essenciais os fatos de população. A cidade, com sua população crescente, torna-se alvo de policiamento político-patológico. Urge, portanto, administrar o espaço urbano de forma a evitar focos de perigo - as doenças , as revoltas populares, a vadiagem, a criminalidade. A medicina ocupa um papel político administrativo essencial no ordenamento desta população, tornando-se denominador comum. Era em nome da medicina que se catalogava um louco, um doente, um criminoso[35].

O contato entre os corpos e entre corpos e espaços apresenta-se problematizado à luz dos perigos invisíveis que habitam as superfícies da cidade. A proximidade entre pobres e ricos foi considerada um perigo sanitário e político. A ameaça dos males sempre possíveis de irromper, de produzir desvios, anormalidades impregnam a vivência urbana. Daí a importância de se recortar a cidade, de seccioná-la em bairros em função das classes sociais,  de se  especializar e funcionalizar os lugares e  remapear os hospitais, os presídios, cemitérios, zonas de prostituições de forma adequada a um esquadrinhamento sanitário.

Os corpos são segregados, selecionados, distribuídos ordenadamente no espaço. A cidade passa a ser  preenchida por lugares de identificação e demarcação dos diferentes tipos de desvio, produzindo alteridades específicas – o louco, o prisioneiro, o doente -  propiciando diversas tipos de receios e  aversões, à medida que produz e expõe o corpo urbano desviante - ou anormal.. Um processo que disciplina nosso universo visual. Tratam-se de lugares de visibilidades construídos em função de mecanismos fabricação de corpos e  determinados modos de vê-los.

Conforme destaca Rabinow, Foucault nos mostra uma reestruturação profunda da sensibilidade social[36]. Corpo e espaço articulam-se a uma vida urbana  configurada pela diversificação de formas de intolerância ao outro que se expressa por uma fobia demarcatória. A paisagem urbana exercita o olhar a ver tipos específicos de perigos,  produzindo uma vigilância permanentemente aberta para qualquer sinal de perigo. Os desvios adquirem estatuto de algo a ser visto. No entanto, as pessoas não contemplam os diversos perigos sem deixarem de contemplar a si mesmas. Como afirma  Frayze-Pereira, (...) a nova luz pela qual Foucault viu o que se realizava em sua obra foi a luz da “problematização”. Analisar a história da loucura, da doença, do crime é ver tipos específicos de perigo ou problemas que evidenciam um modo novo e particular de concebê-lo e de lidar com eles. Então, segundo Foucault, o que ele mesmo evidenciou em sua obra prévia é como as pessoas viram o perigo de se tornar doentes louco, doente, criminoso, como elas lidavam com esses perigos e como eram tornados visíveis ou espacializados no conhecimento e na ação[37]

     As instituições permitem a passagem do louco à loucura, do criminoso ao crime, do doente à doença e conferem a esses indivíduos o modelo de desvio, que as pessoas reconhecem potencialmene em si mesmas. A instituição revela não só os portadores de anormalidade, mas a essência invisível do mal que ele porta. As edificações de concreto se relacionam, pois,  intrinsecamente, não apenas  com os corpos dos desviantes, mas com os dos demais indivíduos da cidade.

Analisando a construção dos asilos, Foucault sublinha como a própria arquitetura das cidades afirma nossa nova relação com o perigo. (...) a alta silueta  que ele erguia no umbral das cidades, diante das prisões manifestava a onipresença dos perigos da loucura[38]. A construção dos asilos psiquiátricos modificando a superfície urbana é uma das indicações modernas de  que todos os indivíduos se tornam “psiquiatrizáveis” que  todos têm com a loucura uma relação profunda (...)[39].  (...) A loucura faz parte doravante de nossas relações com os outros e conosco mesmos assim como  a ordem psiquiátrica atravessa nossas condições de existência cotidiana[40]. As edificações protegem as pessoas  mas também as  ameaçam,  lembrando-lhes do  mal imanente que se encontra nelas e nos outros .

Uma cidade que se edifica confinando indivíduos, construindo, segregando e expondo desvios, não é de  estranhar que tenha seu desenvolvimento acompanhado  por novas impressões, receios, angústias. Medos construídos por uma nova paisagem que vai se desenhando nas cidades, medo que conjuga corpo e espaço,  corpo e lugares, como destaca Foucault a respeito dos pânicos urbanos, no século XVIII que permeavam a vida nas grandes cidades.  (...) Nasce o que chamarei de medo urbano, medo da cidade, angústia diante da cidade que vai se caracterizar por vários elementos: “ medo das fábricas e casas que vão se construindo, do amontoamento da população,  do amontoamento da população, das casas altas demais, população alta demais, medo também das epidemias urbanas, dos cemitérios que se tornam cada vez mais numerosos e invadem pouco a pouco a cidade; medo dos esgotos, das caves sobre as quais são construídas as casas que estão sempre correndo o perigo de desmoronar.[41]

É que o domínio racional dos corpos, lugares, pessoas, coisas remete, entre outros aspectos, a uma impressão estética da cidade e dos corpos urbanos. Foucault revela o intercâmbio entre controle, visibilidade, racionalidade e olhar, destacando o medo, que se desenvolveu na segunda metade do século XVIII, com respeito  aos espaços escuros.  (...) o anteparo de escuridão que impede a total visibilidade das coisas, das pessoas, das verdades.[42]  A escuridão, que entrelaça intimamente corpo e espaço nas impressões urbanas, constitui-se o contraponto da transparência, controle e visibilidade que se buscava conquistar.[43] É, pois, o olhar que possibilita iluminação dos lugares. No final do século XVIII, ver consiste em deixar a experiência em sua maior opacidade corpórea; o sólido, o obscuro, a densidade das coisas encerradas em si próprias têm poderes de verdade que não provêm da luz, mas da lentidão do olhar que os percorre, contorna e pouco a pouco os penetra, conferindo-lhes apenas sua própria clareza. A permanência da verdade no núcleo sombrio da coisas está, paradoxalmente, ligada a este poder soberano do olhar empírico que transforma sua noite em dia. Toda  luz passou para o lado delgado do facho do olho que agora gira em torno dos volumes e diz, neste percurso, seu lugar e sua forma. (...)[44]

 

Em O Nascimento da Clínica, Foucault evidencia o papel capital que  teve  a noção de morte na cultura moderna no desenvolvimento de um novo modo de ver. A racionalidade médica, inscrita no espaço social,  redimensionou a existência dos indivíduos e sua relação com o que a põe em  risco. Fabricam-se conflitos a partir de uma concepção e construção de vida problematizada pela noção de morte; conflitos que intersectam essa oposição vida/morte a um outro par de oposto que daí se desdobra – normalidade/anormalidade. Tratam-se de problematizações que nos conferem formas muito próprias de lidar com o corpo e com o outro e de organizar o mundo social.

O poder se inscreve no corpo em sua realidade paradoxal de vida e morte, de prazer e riscos. Cria, recria e intensifica essas polarizações : aumenta as possibilidades de vida e prazer ao mesmo tempo em que descobre novos inimigos internos,  focos de perigos, zonas sombrias. Um processo contínuo de previsões de riscos, de remapeamento das ameaças.  Os mecanismos do bio-poder instauram uma nova relação do homem com o domínio da natureza: a luta contra o envelhecimento, as doenças, as incapacidades biológicas, as anomalias diversas, numa tentativa contínua de distanciamento e diminuição dos imperativos naturais.

As cidades também caracterizam modificações na relação do homem com a esfera da natureza. O apropriamento dos processos vitais do corpo pelo poder conjuga-se a uma nova forma de organização social no espaço que  também marca o distanciamento do indivíduo com relação aos processos orgânicos da vida  – na medida em que não é um meio natural e em que repercute na população; um meio que foi criado por ela[45] Torna-se, nesse sentido, um dos domínios da bio-política: a preocupação com as relações entre a espécie humana, os seres humano enquanto espécie, enquanto seres vivos, e seu meio, seu meio de existência (...)[46]

Mas o conflito entre natureza e cultura, vida e morte, prazer e risco não se abstrai e se isola no embate do corpo contra ele mesmo através do  intenso  desenvolvimento científico na sua luta contra à limitação humana à sua instância carnal de degeneração e morte. Nem no processo de sofisticação contínua do meio de existência humana. Ele se inscreve na nossa relação com o outro, nos espaços  de contato entre as pessoas, por mais ligeiros e superficiais que sejam

A dimensão corporal se integra à vida urbana, nesse eixo de conflito entre cultura, natureza mas que se conjuga na sua relação com o outro, marcada pela oposição normalidade/anormalidade. A cidade insere o indivíduo nessas polarizações à medida que dela brota continuamente novos focos a serem controlados, novas zonas sombrias a serem iluminadas – pobreza, loucura, doença, criminalidade

Para Foucault, é sempre tensa a trama social, tecida por conflitos  contínuos. Da expressão luta de classes, por exemplo, ele  privilegia a idéia de luta[47].  Não há também, para Foucault, um poder vencedor e nem mesmo unívoco.  Trata-se, antes, da demarcação de pontos de lutas, de jogo de forças, focos de instabilidade, as posições e os modos de ação de cada um, as possibilidades de resistência e de contra-ataque de uns e de outros [48].

As cidades modernas sempre se constituíram  fundamentalmente como lugar de jogo, de posições e contraposições, de controle e de inquietude, engendrando e abrigando  males invisíveis. Desde os primórdios do desenvolvimento das cidades modernas, as elites buscavam  proteção às ameaças patológicas e aos indivíduos perigosos. O desejo burguês de segurança, resguardo e ordem nunca se realizou plenamente. Daí o constante mal-estar que o acompanha desde o início da modernidade - mal-estar em seu corpo e ao seu redor – devido aos riscos na administração intensiva da vida orgânica e social.

A normatização intensa da vida moderna, marcou o crescimento dos patamares de intolerância ao outro, como também uma modificação no conteúdo de inquietude, um remapeamento dos riscos e das impressões desagradáveis.  A sofisticação  do controle dos perigos leva a novas formas de sofrimento e redesenha  o universo do incontrolável.  A racionalização da vida urbana moderna desenvolve-se  paralelamente àquilo que a ameaça, num espelho crescente de oposições sociais.